| Infografia de Cibele Grassi |
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Um olhar superficial sobre nossa literatura mostra que escritores,
poetas e jornalistas destacaram, em suas obras telúricas,
o pampa o gaúcho e o cavalo. A cidade surge como um lugar
propício à nostalgia, solidão e desenraizamento.
A água pouco aparece. Porém, um exame mais profundo
mostra que ela sempre foi personagem presente. Vitor Valpírio,
Barbosa Lessa, Simões Lopes Neto, Mario Totta, Augusto
Meyer, Mario Quintana, Dyonélio Machado, Erico Verissimo
e outros tantos povoaram suas histórias com cachoeiras,
rio, lagos, sangas e poços |
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Água de
todo jeito |
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Luís Augusto Fischer
Mestre e Doutor em Literatura Brasileira, escritor e professor
de Literatura do Instituto de Letras da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul |
O Rio Grande do Sul que aparece na literatura é imediatamente
associado a cavalo, a pampa e a guerra, pelo lado gauchesco, ou
associado a cidade moderna, solidão e nostalgia, pelo lado
urbano. Tanto que, se um leitor despreocupado se puser a rememorar,
dificilmente sairá desses elementos, e com eles é
que vai compor mentalmente as imagens gaúchas na literatura.
Água? Parece difícil enxergar.
| Arquivo Pró-Guaíba |
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Por um lado, é compreensível que a água
apareça pouco, pelo menos num levantamento de memória
feito rapidamente. O motivo é que nossa literatura dispõe
de elementos realmente fortes de identificação, a
começar pelo tema da fronteira e suas lutas, seguindo pela
figura do cavalo, que por si só rende obras de grande valor
em inúmeras tradições culturais, em toda parte
do mundo, e terminando com as figuras dominantes da paisagem gaúcha,
o pampa ou a serra. (O mar, no Rio Grande, tem pouca força
expressiva nos livros, o que talvez se explique pelo fato de nosso
litoral ter um desenho tão diverso daquele que, na visão
média das pessoas, representa o paraíso — aquele
litoral todo recortado de baías e enseadas, com águas
menos frias que as nossas e muito mais mansas do que aquelas que
experimentamos no “mar grosso” característico
de nossas praias.)
Mas isso é só à primeira vista. Se prestamos
atenção, aparece nos livros feitos por escritores
sul-rio-grandenses, ao lado do cavalo e do pampa, do trabalho da
pequena propriedade e da serra, da cidade e dos dramas humanos,
muita água, água em suas variadas modalidades de existência
— como chuva, rio, lago, poço, como névoa, sanga,
riacho, fio d’água sobre a pedra. Água em si
mesma, água como metáfora. Água que é
meio de transporte, água que é barreira. Água
no pampa e na fronteira, água na colônia e na serra.
Muita água, em todos os quadrantes do estado, de norte a
sul, de leste a oeste.
Deste elemento imprescindível é que vamos falar agora,
com as belas e insubstituíveis palavras da literatura, uma
arte que pode até demorar, mas não falha na tarefa
de contar a história de todo mundo e na missão de
meditar sobre a vida real: se o Rio Grande do Sul é como
é, pródigo em águas, sua literatura não
poderia ocultar essa riqueza.
Começo lendário
Os escritores que organizaram a Sociedade Partenon Literário,
na Porto Alegre de 1868, não eram a primeira turma de escritores
a tentar fazer vida literária no estado. Antes deles, outros
grupos se haviam reunido, na cidade de Rio Grande e na capital,
para conversar sobre livros e para editar jornais com suas criações.
Mas os amigos do Partenon tiveram mais sucesso: criaram uma revista
que durou muitos anos, tornando efetiva a intenção
de fazer circular poemas, crônicas e contos numa terra que
era bastante acanhada naquela altura. Um dado concreto: o Censo
de 1872 contou 43.998 habitantes em Porto Alegre, população
que alcançou uns 73 mil no ano de 1900.
Um dos escritores do grupo se assinava Vítor Valpírio,
mas de batismo era Alberto Coelho da Cunha (Pelotas, 1853-1939).
Ele publicou em capítulos, em 1873, uma história chamada
“A mãe do ouro”, espécie de lenda antiga,
citada também por outros escritores, e que na mão
de Valpírio rendeu interessante relato de amor e tristeza.
Conta a desventura de Anita, que ama Leonel mas não é
correspondida; ele foi para a cidade e esqueceu a pobre moça,
filha do posteiro de uma fazenda.
Um dia, Anita está chorando, quando ouve um estouro ao longe.
Pergunta para a mãe qual a origem daquilo; a mãe responde
que se trata da Mãe do Ouro, um ser que vive nas entranhas
da terra e é a dona de todo o nobre metal. E conta para a
filha uma história passada com seu pai, o avô da menina,
um paulista que veio ao Sul e aqui trocou seu belíssimo cavalo
por uma sesmaria de terra. Era uma fazenda, e nela havia, como agregada,
uma família com uma filha mocinha. Moravam perto de uma sanga
que corria por cima de pedras, até um arroio. “À
borda da sanga, meio dentro d’água, havia uma pedra
quadrada vestida de macio musgo, e mais à direita, dois renques
de rochas perdiam-se no bosque.”
Numa linda e encantada noite de luar, essa jovem, a neta do paulista
que segundo a história mal chegava ao Rio Grande do Sul,
viu algo inusitado: “Uma moça lindíssima, nuazinha,
estava assentada sobre a pedra” da sanga. A menina pensou
em fugir diante da aparição, mas esta lhe disse que
ficasse, que não havia perigo; no fim do encontro, a moça
das águas pediu que a menina lhe trouxesse, no dia seguinte,
um pente. E assim aconteceu: na noite do outro dia, a aparição
penteou seus cabelos e contou para a menina histórias maravilhosas
de reinos desconhecidos. Despediram-se, mas voltaram a se encontrar
cinco dias depois, quando a linda moça da sanga ofereceu
à menina um mimo, mandado pela Mãe do Ouro –
era uma concha de marisco. A menina entreabriu as valvas e, para
sua maravilha, começou a brotar ouro mesmo, dali, de suas
mãos. Ouve-se então um estrondo, que fez a aparição
sumir.
A menina correu para casa, para mostrar a sua mãe aquela
maravilha. Mas quando, ainda ofegante, gritou que tinha um presente
da Mãe do Ouro nas mãos, uma maldição
reverteu tudo: “A dobradiça da concha partiu-se, e
uma metade caiu no chão; outra ficou-lhe na mão: um
bando de cobrinhas rolou. Dera-se a mudança do ouro em víboras”.
Uma das serpentes mordeu o peito da menina, e ela morreu.
Anita ouve a história de aspecto lendário, mas nada
alivia sua tristeza. Estamos em pleno Romantismo exacerbado, e Valpírio
não vai poupar uma heroína sua do sofrimento, pelo
contrário. Anita vai viver uma noite de tempestade medonha,
que estremece a casa e derruba o galho de um umbu querido. “As
cascatas do céu, quebrando as represas que as detêm,
despenham-se. As águas espumando rolam em catadupas pelas
vertentes das canhadas.” Chuva para não botar defeito.
No dia seguinte, Anita, a infeliz, vai passear um pouco. “O
sabiá enlanguecia as melodias matutinas pousado na laranjeira;
ao redor da lagoa guinchando voava e revoava o bando de irerês;
os quero-queros garciavam na extrema da campina, e as alvas capororocas
de longo colo negro embalavam-se ao marulhar das águas, arrufando
a penugem deslumbrante.” A natureza estava em festa, como
se vê, menos para Anita, que, na beira do açude, colhe
uma flor do aguapé e a coloca ao peito. Qual não foi
seu horror ao ver sair da bela flor uma cobra coral, espécie
de ser duplo daquelas outras pequenas víboras saídas
da concha, cobra coral que — estamos no Romantismo —
naturalmente morde e mata a pobre, infeliz, desenganada, solitária
Anita.
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Bem próximo de nós no tempo, Luís
Carlos Barbosa Lessa (Piratini, 1929-2001), escritor e um dos animadores
iniciais do Movimento Tradicionalista, escreveu uma versão
lendária do começo do mundo. Está em seu livro
Era de Aré, narração de aspecto bíblico
mas de coração indígena. Também em sua
versão aparece a água como um motivo central:
No princípio havia só Nhandevuruçu. Nosso
Pai Grande. Nosso Pai Criador. O Pai Primeiro. (...) E nasceu, já
consistente, a Terra, que é nossa mãe Nhandeci. E
o ventre da terra foi sulcado pela Água, Í, que lhe
dá seiva e alimento; e a água tomou rumo por entre
os empecilhos da rocha, itá; e a água rumorejou suavemente
fazendo “yí”, o rio; migalhas das rochas nasceram
e cresceram e morreram e renasceram mil corpos diferentes.
Lessa evoca elementos da língua guarani que permaneceram
na nomeação de fenômenos naturais, no Rio Grande
do Sul. De fato, “ita” é rocha, e assim temos
itacolomi, itaqui, itaquera; e também de fato “i”
designa a água, como vemos em tantos nomes de rios, Jacuí,
Ijuí, Itaí e mesmo em Guaíba. Lessa estava
brincando, literariamente, de contar o começo do mundo nesta
parte do planeta: esta parte que calhou de ser a nossa terra.
Mais forte ainda a presença da água se verifica nas
lendas descritas por João Simões Lopes Neto (Pelotas,
1865-1916). Como se sabe, o sábio escritor pelotense, dedicado
pesquisador da cultura popular na região de Pelotas e da
Campanha, publicou em vida alguns livros, entre os quais desponta,
como obra-prima, um volume chamado Lendas do sul, em que ele dá
forma escrita a histórias e mitos que circulam oralmente
no estado. É desse livro a famosa versão do “Negrinho
do pastoreio”, que quase todos conhecemos; é também
desse livro uma narrativa mitológica chamada “A Mboitatá”,
cobra fantástica que se alimentou dos olhos de muitos seres
vivos e por isso exibe pontos de luz em seu corpo. Assim se narra
aquele que teria sido o dilúvio universal primeiro, em versão
gauchesca:
Minto:
na última tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando
para o outro lado das coxilhas¹, rumo do minuano², e de
onde sobe a estrela-d’alva, nessa última tarde também
desandou uma chuvarada tremenda; foi uma manga d’água
que levou um tempão a cair, e durou... e durou...
Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas
coleando3 pelos tacuruzais4 e banhados, que se juntaram, todos,
num; os passos5 cresceram e todo aquele peso d’água
correu para as sangas6 e das sangas para os arroios, que ficaram
bufando, campo fora, afogando as canhadas7, batendo no lombo8 das
coxilhas. E nessas coroas é que ficou sendo o paradouro da
animalada, tudo misturado, no assombro. E era terneiros e pumas,
tourada e potrilhos9, perdizes e guaraxains10, tudo amigo, de puro
medo. E então!...
Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas;
as cobras se enroscavam na enrediça dos aguapés; e
nas estivas11 do santa-fé e das tiriricas, boiavam os ratões
e outros miúdos.
E, como a água encheu todas as tocas, entrou também
na da cobra-grande, a boiguaçu12 que, havia já muitas
mãos de luas13, dormia quieta, entanguida14. Ela então
acordou-se e saiu, rabeando.
Começou depois a mortandade dos bichos e a boiguaçu
pegou a comer as carniças. Mas só comia os olhos e
nada, nada mais.
A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando,
e a cada hora mais olhos a cobra-grande comia.
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A água na cidade
Na virada do século 19 para o 20, quando Porto Alegre e as
demais cidades grandes daquele tempo conheciam novidades estonteantes,
como a energia elétrica e o automóvel, a literatura
floresceu com muito maior facilidade do que até então.
Em prosa e verso os novos escritores começaram a expressar
sua sensibilidade para um público potencialmente grande,
capaz, talvez, de apreciar mais profundamente a sofisticação
e o chamado bom gosto.
Um bom exemplo das novidades é a novela Estricnina, publicada
em 1897, nos derradeiros anos do século 19, em Porto Alegre.
Escrita por três jornalistas bastante jovens (Paulino Azurenha,
1861-1909, Souza Lobo, 1875-1935, e Mário Totta, 1874-1947),
flagra um caso de amor contrariado, tão malsucedido que chega
a um duplo suicídio (mediante ingestão do veneno que
está no título). A capital vive um surto de moderização,
a começar pela iluminação elétrica,
que transforma a noite num verdadeiro dia, na opinião das
pessoas daquela época.
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1 Pequenas e arredondadas elevações do terreno, típicas
da região sul do Rio Grande do Sul e do pampa em geral.
2 Vento invernal que sopra do sudoeste, no sul do país.
3 Serpenteando; movendo-se sinuosamente.
4 Tacuruzal é o ninho do cupim, que forma pequenos montes
no campo.
5 Pontos de passagem dos riachos. “Os passos cresceram”
indica que tais pontos de passagem foram alagados, saíram
de seu formato habitual, vindo a impedir qualquer trânsito.
6 Buracos, escavações no terreno, onde a água
se empoça e, habitualmente, seca rapidamente.
7 A garganta entre as coxilhas.
8 Lombo, o dorso do animal, aqui significa a encosta da coxilha.
9 Cavalo de menos de dois anos.
10 Graxaim: cachorro-do-mato
11 Estiva: sinônimo de grande quantidade.
12 Boiguaçu: do tupi, boi (ou mboi), cobra; e guaçu
ou açu, grande. Simões Lopes Neto usa a forma “mboi”
apenas no título.
13 Entenda-se: o narrador arremeda aqui a contagem que um índio
faria, contando as luas nos dedos das mãos.
14 Encolhida de frio.
Quase no final do romance, Chiquita morre, e Neco Borba ainda sobrevive
por um tempo. Ela, que foi prostituta — motivo pelo qual,
no fim das contas, Neco não conseguia amá-la verdadeiramente,
preso pelo preconceito social —, será enterrada antes
dele. Os autores não tiveram pudor de recorrer ao lugar comum,
e puseram uma chuva fina no cenário triste:
Pouco depois veio a maca e, ao mesmo tempo que o corpo do Borba
era levado para a casa religiosamente, de carro, nos braços
dos irmãos e dos amigos, o cadáver da Chiquita lá
ia, alta noite, rua fora, carregado por quatro estranhos, caminho
do Necrotério, sob o vento e sob a chuva que caía
fria, miúda, nervosa, tristemente, tristissimamente.
Outra maneira de ver a presença da água na cidade
tem a ver com o rio, é claro. Um interessante romance chamado
Frida Meyer, de 1924, escrito pelo carioca Vivaldo Coaracy (Rio,
1882-1967), que viveu alguns anos em Porto Alegre no começo
do século 20, traz a seguinte descrição, que
talvez possa ser tomada como representativa da visão porto-alegrense
acerca do tema:
Caía a tarde, grisalha e triste. Vinha de longe, vago,
um prenúncio de chuva, no ar frio daquela primavera precoce.
Em frente à janela aberta da sala de jantar, além
dos telhados da casaria que se despejava pela encosta abaixo, a
faixa do rio tinha a placidez fosca duma chapa metálica;
as ilhas fronteiras esboçavam-se, mal definidas, através
duma escumilha de neblina rala, cor de chumbo.
Na poesia do período, são raras e esparsas as
menções à agua. Em parte, isso se explica pela
moda simbolista, um estilo de poesia cujo fim era tratar de figuras
e paisagens distantes da vida real, associadas a uma visão
espiritualista das coisas. Como se vê num poema de Eduardo
Guimaraens (Porto Alegre, 1892-1928) chamado “O cisne e o
lago”:
Um cisne de suave e soberba plumagem,
à flor de um lago azul onde a manhã se espelha,
segue surpreso o cisne irreal que o semelha
ao fundo d’água, e feito à sua própria
imagem.
Verdes, ao derredor, uma ou outra ramagem
refletidas. E na onda a luz do sol centelha,
desde a rósea alvorada à véspera vermelha,
sente o cisne a enlevá-lo essa branca miragem.
Pende às vezes o colo esbelto longamente
para o cristal: e beija um fantasma que mente,
até que baixe a noite e as suas penas tisne.
Tremem os caniçais... os astros despontaram...
E fica o cisne só, como as almas que amaram
e para quem o amor foi a sombra de um cisne.
Um belo soneto, dedicado a meditar sobre as relações
entre o amor, a ausência e a imagem que se reflete, nesta
caso na superfície de um lago que é quase europeu,
quase uma pintura decorativa, muito distante da natureza selvagem
encontrável na vida real sul-rio-grandense. Uma água
idealmente paralisada, como se fosse mesmo um espelho.
Gauchesca
Na geração que escreveu as melhores histórias
gauchescas, a água aparece com enorme presença. Ao
lado do já citado Simões Lopes Neto, figura um talento
como o de Amaro Juvenal, pseudônimo do médico e político
Ramiro Barcelos (Cachoeira do Sul, 1851-1916), autor do genial Antônio
Chimango, poema narrativo dedicado a falar mal do personagem-título,
que por sua vez era uma representação de um político
poderoso, ninguém menos que Antônio Augusto Borges
de Medeiros, manda-chuva gaúcho da Primeira República.
Em um momento famoso do poema, ocorre uma cena de travessia do gado
por um rio que está fora da caixa, inundando a planície
vizinha. Aí vai-se pôr à prova o talento campeiro
do tio Lautério, personagem que pretende representar o homem
comum da estância, aquele que é destro no manejo do
gado e que não se deixa levar pela conversa dos poderosos.
Diz a narração dessa travessia, com grande colorido,
num trecho da “Quarta Ronda”:
O Camaquã15 ficou cheio,
Deitou água campo fora16;
Ali nos veio a caipora17,
Que o destino a ninguém poupa:
Nem tempo pra mudar a roupa,
Nem pra desatar a espora.
Quando o tempo ansim desaba
E a chuva bate de açoite,
Não há peão que se amoite18
Ou se deite na macega19;
Porque a tropa20 não sossega,
Quer de dia, quer de noite.
Arisca e redemoinhando
A tropa estava arengueira21;
Se não fosse tão campera22
A peonada e de truz23,
Tinha o dono feito cruz
Na marca24 e havido porquera25.
Dia e meio ali ficou-se
Parado à beira da enchente.
Mas mui pronto, felizmente,
Foi-se apresentando a baixa,
Entrou logo o rio na caixa26,
Ansim muito de repente.
Era sinal de mais chuva,
Não havia que hesitar;
Tinha a tropa que passar
A nado e já, sem demora,
Pois, se não passasse agora,
O remédio era voltar.
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15 O rio Camaquã, de grande extensão e importância,
cujo leito corta o estado de oeste a leste, genericamente.
16 Isto é: transbordou seus limites, extravasando mesmo as
barrancas, alcançando o campo das margens.
17 “Caipora”: má sorte.
18 “Se amoite”: se esconda entre as moitas (arbustos).
19 “Macega”: genericamente, os arbustos do campo, no
Rio Grande do Sul.
20 “A tropa”: entenda-se, a tropa de animais, que não
pára, a não ser por imposição externa.
21 “Arenguera”, por “arengueira”: que faz
arenga, manifesta inquietação, desassossego.
22 “Campera”, por “campeira”, em mais uma
forma popular, segundo a pronúncia sulina; o termo é,
como visto na ronda anterior, elogioso: o campeiro é, mais
que o trabalhador do campo, o sujeito destro no manejo das coisas
daquele universo.
23 “De truz”: excelente, magnífica.
24 Fazer cruz na marca: perder um animal e não ter esperança
de recuperá-lo; a marca é o sinal feito a fogo no
pêlo, para consignar a propriedade.
25 “Porquera”, por “porqueira”: rolo, confusão.
26 A “caixa” é o leito habitual do rio.
Pra dar volta do caminho
Muita corage é preciso!
Não é tanto o prejuízo,
É a vergonha que se passa.
Com mais gosto a gente abraça
Uma cascavel de guizo27.
O Lautério era ponteiro28
E este tinha caracu29;
Num proviso30 se pôs nu,
Era como capivara,
E guasqueando o malacara31
Com seu rabo de tatu,
Pinchou-se32 n’água e gritou:
- “Façam cair bem a ponta33,
Que o resto é por minha conta;
Não tenho a pança furada34".
E foi caindo a novilhada
Aos magotes, meio tonta.
0 gado foi descambando,
Que a correnteza era forte;
Mas o dia era de sorte
E o Lautérío, buenacho35,
Ganhou porto logo abaixo36
Com todo o primeiro corte37.
Vendo a ponta do outro lado,
O resto frechou direito38.
Não é lá qualquer sujeito,
Não é qualquer mata-cobra39
Que executa esta manobra
E passa um gado com jeito.
Mas ninguém soube como Simões Lopes Neto retratar
a presença da água como elemento realmente ativo na
vida do homem do campo. Pode-se tomar várias cenas de seus
Contos gauchescos, a começar pela primeira e famosa história,
“Trezentas Onças”40, em que um gaúcho
honrado e experiente, Blau Nunes, enfrenta uma prova dura, quando
esquece de uma grande quantidade de dinheiro, exatamente aquela
que está citada no título, e depois tenta recuperá-lo,
ainda bem que com sucesso. É importante levar em conta que
a narração é do próprio Blau, que relata
sua experiência para um sujeito que anda com ele pelas paisagens
interioranas. A parte inicial conta assim:
– Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que viajava de
escoteiro41, com a guaiaca empazinada de onças de ouro, vim
varar aqui neste mesmo passo42, por me ficar mais perto da estância
da Coronilha, onde devia pousar. Parece que foi ontem!... Era por
fevereiro; eu vinha abombado43 da troteada. – Olhe, ali, na
restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato44, que
está nos vendo, na beira do passo, desencilhei45; e estendido
nos pelegos, a cabeça no lombilho46, com o chapéu
sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda47. Despertando, ouvindo
o ruído manso da água tão limpa e tão
fresca rolando sobre o pedregulho, tive ganas de me banhar; até
para quebrar a lombeira48... e fui-me à água que nem
capincho49! Debaixo da bar- ranca havia um fundão onde mergulhei
umas quantas vezes; e sempre puxei umas braçadas, poucas,
porque não tinha cancha para um bom nado. E solito e no silêncio,
tornei a vestir-me, encilhei o zaino50 e montei.
Quase se pode ouvir e ver o curso da água, tão
forte e precisa é sua descrição do refrigério
que teve na água, num fevereiro quente, como nós sabemos
que podem ser quentes alguns dos verões sulinos.
Em outro conto, desde o título comparece um elemento aquático:
um manantial, isto é, um pântano, uma região
alagadiça, baixa, em que a água verte, sempre e pouco.
Na versão do conto de Simões Lopes, este local é
palco de uma tragédia. Assim começa o conto “No
manantial”, em que mais uma vez Blau Nunes conta uma lembrança
sua a seu companheiro de viagem:
– Está vendo aquele umbu, lá embaixo, à
direita do coxilhão?
Pois ali é a tapera51 do Mariano. Nunca vi pêssegos
mais bonitos que os que amadurecem naquele abandono; ainda hoje
os marmeleiros carregam, que é uma temeridade!
Mais para baixo, como umas três quadras52, há uns olhos-d’água,
minando das pedras, e logo adiante uns coqueiros; depois pega um
cordão de araçazeiros53.
Diziam os antigos que aí encostado havia um lagoão
mui fundo onde até jacaré se criava.
Eu, desde guri conheci o lagoão já tapado pelos capins,
mas o lugar sempre era respeitado como um tremedal54 perigoso; até
contavam de um mascate que aí atolou-se e sumiu-se com duas
mulas cargueiras e canastras e tudo...
Mais de uma rês magra ajudei55 a tirar de lá; iam à
grama verde e atolavam-se logo, até a papada.
Só cruzam ali por cima as perdizes e algum cusco leviano56.
Com certeza que as raízes do pasto e dos aguapés foram
trançando uma enrediça fechada, e o barro e as folhas
mortas foram-se amontoando e, pouco a pouco, capeando, fazendo a
tampa do sumidouro.
E depois nunca deram desgoto57 na ponta do lagoão, porque,
se dessem, a água corria e não se formaria o mundéu...
Mas, onde quero chegar: vou mostrar-lhe, lá, bem no meio
do manantial, uma cousa que vancê nunca pensou ver; é
uma roseira, e sempre carregada de rosas...
Gente vivente não apanha as flores porque quem plantou a
roseira foi um defunto... e era até agouro um cristão
enfeitar-se com uma rosa daquelas!...
Mas, mesmo ninguém poderá lá chegar; o manantial
defende a roseira baguala58: mal um firma o pé na
beirada, tudo aquilo treme e bufa e borbulha...
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27 Mais um registro da ética do gaúcho, agora na
voz narrativa que relata a primeira parte das rondas: ter “vergonha”
é o mesmo que tê-la “na cara”.
28 “Ponteiro”: o animal e/ou o cavaleiro que anda na
primeira posição da marcha da tropa, à frente
dos demais.
29 “Caracu”: literalmente, o tutano dos ossos; “ter
caracu” é ter coragem e resistência.
30 “Proviso”, por “improviso”, em forma
popular.
31 Guasquear: açoitar (com a guasca, literalmente com correia
de couro cru), mas nesse caso com o “rabo de tatu”,
mencionado no verso seguinte, que é um rebenque de couro
trançado e eventualmente a ponta do rabo do tatu propriamente
dito; “malacara”: cavalo de pêlo mais claro que
escuro com mancha branca na testa e ao longo da cara.
32 Pinchar-se: atirar-se.
33 A “ponta”: entenda-se a ponta da tropa, os primeiros
animais.
34 Este verso, “Não tenho a pança furada”,
pode ser lido como uma atitude não apenas de destemor ou
ousadia, mas também de bravata, de jactância, característica
que compõe o modo de ser da ética masculina gauchesca.
35 “Buenacho”: muito bom, muito valente e destro (de
bueno, espanhol).
36 “Ganhou porto”: chegou na margem oposta um pouco
abaixo do ponto de ingresso no rio.
37 “Corte”: o pequeno lote de animais, a “ponta”
que foi tocada para a água por primeiro.
38 “O resto frechou direito”: os restantes animais seguiram
o caminho dos primeiros, sem maior resistência.
39 “Mata-cobra”: no contexto, um sujeito qualquer; mais
uma afirmação das virtudes do tio Lautério,
que além de relator da história é também
um gaúcho hábil em tarefas difíceis como esta.
40 Onça: antiga moeda de ouro.
41 Viajar de escoteiro: viajar sozinho, sem levar outros animais
além da montaria.
42 Varar: atravessar; passo: local em que um rio dá passagem,
para cavalos e gado. Blau Nunes usa o pronome “este”
para referir-se ao passo; significa que a fala que estamos lendo
simula estar reproduzindo um diálogo ao vivo com o interlocutor;
é como se Blau estivesse apontando o passo, mostrando na
hora o local que uma vez já conhecera. Este procedimento
é repetido inúmeras vezes.
43 Cansado, exausto.
44 Reboleira de mato: capão de mato; moita.
45 Desencilhar: tirar os arreios do cavalo.
46 Sela.
47 Grande, larga.
48 Sonolência, cansaço.
49 Capivara.
50 Cavalo de pêlo castanho-escuro e sem manchas.
51 Casa abandonada.
52 Quadra: extensão de 132 metros.
53 Pega um cordão de araçazeiros: segue uma linha
de araçazeiros.
54 Pântano, manantial.
55 Note-se que Blau está dando um depoimento pessoal, de
quem conheceu aquele cenário noutro tempo.
56 Cusco leviano: cachorro leve, de pouco peso.
57 O autor põe em itálico as palavras de uso popular.
58 Baguala: selvagem; livre, indomada.
Uns carreteiros que acamparam na tapera do Mariano contaram
que pela volta da meia-noite viram sobre o manantial duas almas,
uma, vestida de branco, outra de mais escuro... e ouviram uma voz
que chorava, uma, choro mui suspirado e outra que soltava barbaridades...
Mas como era longe e eles estavam de cabelos em pé... –
pois nem os cachorros acuavam, só uivavam... uivavam... –
não puderam dar uma relação59 mais clara do
caso.
E o lugar ficou mal-assombrado.
A tragédia que acontece no conto explica a origem da roseira
que brotou no meio do pântano: nasceu de uma rosa que estava
sendo usada por uma moça, prometida em casamento para um
determinado sujeito mas assediada por outro, e este outro a persegue,
num dia em que perde a cabeça — ambos montados, cada
um em um cavalo, o rapaz corre atrás da moça, e eles
acabam, sem querer, e com cavalos e tudo o mais, afundados no atoleiro,
engolidos pelas águas estranhas e escuras que formam o fundo
falso daquele terreno. Uma história triste mas, à
sua maneira, linda, como sempre acontece com Simões Lopes
Neto: em sua obra, os elementos da natureza — neste caso,
o ímpeto do rapaz peseguidor e a voragem do manantial —
estão sempre desafiando as convenções sociais
e a força dos indivíduos.
Outra água simoniana aparece no também belíssimo
conto Contrabandista, em que um sujeito muito acostumado ao comércio
internacional clandestino, tão característico de vastas
extensões da fronteira gaúcha com o Uruguai e a Argentina,
será flagrado por forças legais e conhecerá
a morte, no exato dia do casamento de sua filha, para quem ele havia
ido buscar o enxoval lá do outro lado. A cena inicial é
mais uma vez uma pintura, desta vez salientando as virtudes de Jango
Jorge, velho conhecedor das passagens do irregular rio fronteiriço,
experiente no conhecimento das fontes e olhos d’água
da região toda:
– Batia nos noventa anos o corpo magro mas sempre teso
do Jango Jorge, um que foi capitão duma maloca60 de contrabandistas
que fez cancha61 nos banhados do Ibirocai62.
Esse gaúcho desabotinado63 levou a existência inteira
a cruzar os campos da fronteira: à luz do sol, no desmaiado
da lua, na escuridão das noites, na cerração
das madrugadas...; ainda que chovesse reiúnos acolherados64
ou que ventasse como por alma de padre, nunca errou vau65, nunca
perdeu atalho, nunca desandou cruzada!...
Conhecia as querências, pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo
florescido, lá o dos trevais, o das guabirobas rasteiras,
do capim-limão; pelo ouvido: aqui, cancha de graxains, lá
os pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante,
o chape-chape66, noutro ponto, o areão. Até pelo gosto
ele dizia a parada67, porque sabia onde estavam águas salobres
e águas leves, com sabor de barro ou sabendo a limo.
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59 Relação: relato.
60 Grupo.
61 Fez carreira.
62 Pela biografia de Simões Lopes Neto, sabe-se que, sendo
natural e residente de Pelotas, no sul do estado, ele residiu algum
tempo em Uruguaiana, no extremo oeste do Rio Grande do Sul, fronteira
com a Argentina, onde sempre houve trânsito de gente e mercadorias,
a despeito do limite geopolítico. O arroio Ibirocai se localiza
aí, nesta região.
63 Valentão, mas também insensato.
64 Reiúno: gado vulgar. A expressão reiúnos
acolherados, literalmente animais juntos, é evidente hipérbole.
65 Vau: trecho raso do rio, por onde se pode cruzá-lo.
66 O dicionário Aurélio dá como sinônimo
de terreno duro; mas pode ser, pelo contexto, terreno lamacento.
67 Dizia a parada: diagnosticava o local. Veja-se que Jango Jorge
é dado como conhecedor das coisas pelos sentidos do corpo
(faro, audição, gosto), como os índios.
Simões Lopes chega a requintes em se tratando do elemento
água. No conto “Duelo de farrapos”, ao descrever
uma fascinante mulher, ele compara seu olhar ao sol que atravessa
a água, devassando-a:
E ela veio; e mal que chegou, o general veio à porta,
fez um rapapé e foi com ela pra tal sala onde estavam os
outros.
Se era linda a beldade!... Sim, senhor, dum gaúcho de gosto
alçar na garupa68 e depois jurar que era Deus na terra!...
E destorcida69, e bem-falante, e olhava pra gente, como o sol olha
pra água: atravessando!
No triste conto “Penar de velhos”, relata o sentimento
duro da ausência de um ente querido, e a comparação
que usa para mostrar que até os homens mais fortes se entregaram
ao choro lembra um elemento aquático mais raro, mais sofisticado
— as gotas d’água que caem de certa planta, o
caeté. Veja-se o trecho:
A velhita finou-se primeiro, e de pura pena foi por certo.
O vizindário em peso acudiu ao velório; o enterro
se fez na vila.
Pois desde a estância até o cemitério –
umas quantas léguas – o caixão veio sempre à
mão. Mas não pesava nada. Também – pobrezinha!
– que pecados podia ela ter?...
E quando foi a hora de o corpo cair na cova, que cada um atirou
um punhado de terra, e que as crianças – quase todas
suas afilhadas – e as mulheres desataram num pranto de choro
e até o coveiro se entreparou atristado, aí vi mais
de um gaúcho colmilhudo70 manoteando71 nas lágrimas
que dos olhos lhe caíam, grandes e claras, como as gotas
d’água que caem do cartucho dos caetés72...
 |
No derradeiro conto de seu livro, “O ‘menininho’
do presépio”, Simões Lopes relata um encontro
fulminante de dois amantes, que num desespero não conseguem
controlar sua vontade por assim dizer sexual, numa violência
repentina tal como aquela que a água representa, quando faz
rebentar uma represa:
As mãos se encontraram... e num de-repente, num silêncio,
num tirão73 das suas almas, na pressa e no lusco-fusco, perto
da gentama, numa relancina de corisco74, as duas bocas famintas
se encontraram... e um beijo, um beijo que jurou pelos dois, para
toda a vida, um beijo só derrubou todas as negaças,
como uma represa de açude aluída é derrubada
por uma descida de águas...
No ano de 1913, o mesmo genial Simões Lopes Neto dá
à luz outra obra-prima de seu talento, desta vez não
criando enredos originais e sim reescrevendo, dando forma nova,
a histórias conhecidas já na tradição
oral — trata-se de Lendas do sul, que traz três histórias
totalmente desenvolvidas (“A Mboitatá”, “A
salamanca do Jarau” e “O negrinho do pastoreio”),
além de 15 outras histórias apenas esquematizadas,
como se pensasse em oferecer a outro candidato a matéria
prima para futuros relatos.
Na história da salamanca do Jarau — salamanca é
o mesmo que furna, gruta, e Jarau é o nome de um cerro realmente
existente, na fronteira sul do Rio Grande —, assim é
descrito o momento em que o sacristão vai encontrar a Teiniaguá,
que vem a ser a princesa moura encantada que vai enfeitiçar
o rapaz por muito tempo:
Um dia, na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras,
sesteando; nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças,
nem choro de crianças, tudo sesteava. O sol faiscava nos
pedregulhos lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada, no
ar parado, sem uma viração.
Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha
da sacristia, levando no corpo a frescura da sombra benta, levando
na roupa o cheiro da fumaça piedosa. E saí sem pensar
em nada, nem de bem nem de mal; fui andando, como levado...
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Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.
A água da lagoa borbulhava toda, numa fervura, ronquejando
tal e qual como uma marmita no borralho75. Por certo que lá
em baixo, dentro da terra, é que estaria o braseiro que levantava
aquela fervura que cozinhava os juncos e as traíras e pelava
as pernas dos socós76 e espantava todos os mais bichos barulhentos
daquelas águas...
Eu vi, vi o milagre de ferver toda uma lagoa... ferver, sem fogo
que se visse!
Vale lembrar que esta parte da história ocorre numa das
missões que existiram no noroeste do Rio Grande do Sul, o
que leva nossa imaginação para uma lagoa daquelas
bandas, quem sabe em São Borja, em São Luís,
em Santo Ângelo. Justamente na hora da calma após o
almoço, no calor radical, o sacristão vê o estranho
milagre de a água ferver sem fogo. Como ele insiste em ficar
por ali, com medo mas com maior curiosidade, lhe é dado ver
o que até então ninguém por aqui tinha visto,
a aparição da teiniaguá, uma lagartixa, que
esconde a tal princesa moura. Assim é que lemos:
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68 Alçar na garupa: fazer subir na garupa (do cavalo); tomar.
69 Desembaraçada.
70 Velho, experimentado. (Originalmente, designa o cavalo que está
ficando velho, o que se observa pelas presas, os colmilhos, grandes.)
71 Manotear: mexer com as mãos (diz-se do cavalo que movimenta
as patas dianteiras).
72 Planta brasileira também conhecida como bananeira do mato
(de folhas largas, os cartuchos).
73 Puxão seco; safanão.
74 Numa relancina de corisco: com a rapidez de um raio.
75 Braseiro, coberto de cinzas.
76 Ave pernalta que come peixe.
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Era a teiniaguá, de cabeça de pedra luzente, por
sem dúvida; dela já tinha ouvido ao padre superior
a história contada dum encon-tradiço77 que quase chegou
de teimar em agarrá-la.
Entrecerrei os olhos, coando a vista, caute-lando o perigo; mas
a teiniaguá veio-se me chegando, deixando no chão
duro um rastro d’água que escorria e logo secava, do
seu corpinho verde de lagartixa engraçada e buliçosa...
Lembrei-me – como quem olha dentro duma cerração
–, lembrei-me do que corria na voz da gente sobre o entanguimento78
que traspassa o nosso corpo na hora do encantamento: é como
o azeite fino num couro ressequido...
Mas não perdi de todo a retentiva79: pois que da água
saía, é que na água viveria. Ali perto, entre
os capins, vi uma guampa e foi o quanto agarrei dela e enchi-a na
lagoa, ainda escaldando, e frenteei80 a teiniaguá que, da
vereda81 que levava, entreparou-se, tremente, firmando nas patinhas
da frente, a cabeça cristalina, como curiosa, faiscando...
A teiniaguá era ligada à água, e foi por isso
que o sacristão conseguiu fazê-la sobreviver, ao colocá-la
numa guampa com água, até que com ela chegasse a seu
quarto, onde ela o seduziu e toda a história do encantamento
começou.
Adiante, no mesmo relato, outra cena aquática decisiva: Blau
Nunes, que também nesta história é personagem,
justamente o personagem que encontrou o sacristão enfeitiçado
pela teiniaguá — ambos passaram a viver dentro da furna
do cerro do Jarau, esperando que o encantamento acabasse —,
Blau Nunes resolve aceitar o convite para ver com seus próprios
olhos o que há de tão extraordinário dentro
da tal salamanca. E o que vê?
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Blau Nunes foi andando.
Desembocou num campestre82, de gramado fofo, que tinha um cheiro
doce que ele não conhecia; em toda a volta árvores
enflo-readas e estadeando83 frutos; passarinhada de penas vivas
e cantoria alegre: veadinhos mansos; capororocas84 e outro muito
bicha-redo, que recreava os olhos; e listando a meio85 o campestre,
brotado duma roca86 coberta de samambaias, um olho-d’água,
que saía em toalha e logo corria em riachinho, pipocando
o quanto-quanto sobre areão solto, palhetado de malacachetas87
brancas, como uma farinha de prata...
E logo uma ronda88 de moças – cada qual que mais cativa89!
–, uma ronda alegre saiu dentre o arvoredo, a cercá-lo,
a seduzi-lo, a ele Blau, gaúcho pobre, que só mulheres
de anáguas resvalonas90 conhecia...
Vestiam-se umas em frouxo trançado de flores, outras
de fios de contas, outras na própria cabeleira solta...;
estas chegavam-lhe à boca caramujos estrambóticos,
cheios de bebida recendente e fumegando entre vidros frios, como
de geada; dançavam outras num requebro marcado por música...
outras lá acenavam-lhe para a lindeza dos seus corpos, atirando
no chão esteiras macias, num convite aberto e ardiloso...
Daria para dizer que se trata de um paraíso na terra,
ou melhor, nas entranhas fantásticas da terra do Jarau. Um
paraíso que tem algo de oriental, de árabe, de mourisco,
com esta água pura brotando no meio da paisagem, a natureza
pródiga oferecendo frutos maduros e, não podemos esquecer,
mulheres lindas, exóticas, perfumadas, querendonas...
Modernistas
Os escritores modernos do Rio Grande do Sul, aqueles que
praticam sua arte dos anos 1920 e 1930 em diante, já afinados
com certas atitudes das chamadas vanguardas artísticas, vão
reprocessar a herança dos predecessores, naturalmente com
atenção aos elementos novos, trazidos pelo avanço
da ciência e da tecnologia.
Mas os poetas gaúchos dessa época guardam bastante
da melancolia simbolista. Basta ver a descrição de
uma sanga feita por Augusto Meyer (Porto Alegre, 1902-1970), sujeito
que, bisneto de alemães imigrantes e natural da capital,
viveu parte da infância em cidade da campanha, de onde sai
esta lembrança:
Vem ver esta sanga funda
com remansos de água clara:
lá embaixo o céu se aprofunda,
a nuvem passa e não pára.
Numa cisma vagabunda,
olhando-se cara a cara
quantas vezes me abismara:
água clara... alma profunda
E que estranho era o meu rosto
no momento em que o sol-posto
punha uns longes na paisagem!
Aprendi a ser bem cedo
segredo de algum segredo,
imagem, sombra de imagem...
O bom mas esquecido escritor Athos Damasceno Ferreira (Porto Alegre,
1902-1975) também deixou um belo poema envolvendo a água,
“As docas”, neste caso o rio, um rio barrento como vários
dos nossos rios sul-rio-grandenses.
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77 Contada dum encontradiço: entenda-se “contada por
um sujeito que foi encontrado ao acaso”.
78 Encolhimento, contração.
79 Consciência, percepção das coisas que se
passavam.
80 Frenteei: fiquei em frente.
81 Caminho.
82 Pequeno campo.
83 Ostentando.
84 Espécie de ave, de cor branca.
85 Listando a meio: cortando ao meio.
86 Rocha.
87 Palhetado de malacachetas: pintado, salpicado de micas (mineral
laminado, colorido, que reflete variadamente a luz).
88 Roda; agrupamento.
89 Cativante.
90 Mulheres de anáguas resvalonas: mulheres de anáguas
folgadas, desgraciosas. O narrador enfatiza a surpresa de Blau ao
topar com mulheres lindas e bem vestidas (ou nem vestidas, a bem
da verdade, como se verá a seguir), porque ele, pobre, só
tivera amores com mulheres desgraciosas.
Os focos redondos espreitam de dentro da bruma.
Aqui — o silêncio devora o ruído dos passos
e, lá atrás, a cidade sombria se esfuma...
O rio barrento se move pesado,
encrespa os opacos reflexos nas ondas.
E o asfalto parece de vidro molhado.
Ao longo dos mastros se encolhem as velas,
e agora, lá longe, no bairro das fábricas,
acendem-se insones clarões nas janelas...
Caem sombras compridas nas zonas das ilhas,
adivinham-se, em cima, as estrelas... e o rio
embala a amorosa dolência das quilhas...
Uma poeta de linguagem clara e tranqüila, mas que mirava
na profundeza da alma humana, foi Lila Ripoll (Quaraí, 1905-1967).
Várias vezes em sua obra os elementos da vida são
comparados a estados e formas da água — a chuva fina
que parece música em surdina, a lagoa velha e triste como
um rosto solitário —, até o ponto de se tornar
a chave de alguns poemas, como “Quietude”, em que a
placidez das águas de um arroio é associada ao frio
dos sentimentos:
No arroio quieto,
como são frias
as águas claras!
— Ai! a tristeza
das águas mansas,
dos rostos mansos,
dos risos calmos!
Na superfície
do arroio quieto,
brincando passam
os ventos leves
da primavera.
— Pobre quietude
do arroio claro,
das águas mansas,
dos risos calmos!
O mais importante poeta desta geração (e de qualquer
outra, no Rio Grande do Sul) é Mário Quintana (Alegrete,
1905-1994). Autor de vários textos que penetraram na sensibilidade
de seus leitores, sempre cultivando a marca da singeleza e do apelo
aos sentimentos mais puros, Quintana não muitas vezes menciona
a água como elemento de comparação ou como
cenário. Em seu primeiro livro, A rua dos cataventos, de
1940, comparece um poema a evocar a garoa; em Canções,
de 1946, temos a “Canção do charco”, que
assim principia:
Uma estrelinha desnuda
Está brincando no charco.
Coaxa o sapo. E como coaxa
A estrelinha dança em roda.
Cricrila o grilo. Que frio!
A estrelinha pula, pula.
Uma estrelinha desnuda
Dança e pula sobre o charco.
No interior
A vida interiorana, já por transcorrer mais próxima
da natureza, afastada do asfalto e das grandes aglomerações,
induz os escritores a pensar mais nos elementos primordiais da vida,
como é o caso da água. Em poetas nascidos na região
colonial, é bem freqüente encontrar representações
da água. Um caso que se pode mencionar com grande proveito
é o de Oscar Bertholdo (Nova Roma do Sul, na Serra, 1935-1991),
poeta que registrou com grande minúcia a vida colonial dos
descendentes de italianos, como na seguinte passagem:
— Uma canção, a cantina, os cestos das frutas
o relógio de parede, os cheiros quentes da cozinha
uma imagem da Virgem de mãos postas, os sons
e a inocente beleza de um tapete bem bordado
as sombras, o silêncio das escadas, os medos
acessíveis de lendas ainda transmitidas
a água gotejando sobre as lágeas e os limites
das lembranças portadoras de sentenças
a mesa destinada a ser convívio, as cortinas
os derradeiros esconderijos do sótão, as rosas
e as fictícias mentiras familiares
os nomes, o riso, os anjos da guarda
a solidão invisível rodeada de cacoetes
e o amor carregando como sempre a vida.
Esta “água gotejando”, que pode ser a de
uma nascente nas pedras ou de um fio de água magro, no verão,
compõe o cenário detalhado da vida familiar, típica
do mundo da pequena propriedade, do mundo colonial, da ordem agrária.
Água integrada, não como um luxo, mas como uma necessidade.
Água tão essencial naquele mundo como em qualquer
outro, mas que ali parece integrada profundamente, como se pode
ler também na poesia de Jayme Paviani (Flores da Cunha, 1940),
no trecho final de seu “Águas de colônia”:
São águas de colônia
que lavam as moças
no rito da tina
atrás da cozinha.
Mistério das águas puras
guardando horizontes
na solidão do poço,
a força dos moinhos
de brancos véus
no fundo do vale.
Pequenas águas dos riachos
que morrem e nascem
como nós.
O repertório de águas que Paviani lembra —
aquelas dos caminhos, as de poço, as de cachoeira, as de
moinho, as do banho, as da cozinha, as da chuva — pouco tem
a ver com o registro das águas por parte dos poetas gauchescos
que, a partir dos anos 1950, começaram a publicar sua arte.
Poeta bastante experiente, Aureliano de Figueiredo Pinto (Tupanciretã,
1898-1959) é o mais antigo dessa leva. Em vários de
seus poemas encontraremos imagens associadas a água, como
em “Da água da sanga”:
Entre coxilhas, contente,
dando o barrito aos barreiros,
dessedentando, ao sol quente,
cavalos e cavaleiros,
e toda sede a saciar.
Corre, cantando sentida,
com a certeza comovida
de um dia morrer no mar.
O quadro que pinta para a pipa é comovente, incluindo a fala
popular:
Enche a pipa em poucos tragos,
nesse alcaide carretão.
E aos pouquitos se esvazia.
E nisso... pela água fria
difere do beberrão.
Na sombra do cinamão
no cabeçalho se apóia:
— J’hai água pra fazer bóia!
J’hai água pra o chimarrão”
..........................................
(Sarta, gori!... não te móia!
Coidado com a cunstipação!...)
Jayme Caetano Braun (Bossoroca, 1924-1999) é outro dos
gauchescos a mencionar seguidamente as formas da água no
pampa e na região das Missões, como no belo poema
chamado “Chuvarada”, cuja primeira parte diz:
Aí foi o mate,
meu patrício,
agarre,
chupe no mais,
enquanto a chuva passa,
que apague o pó,
que faça lodo,
embarre,
que a seca é braba
de sair fumaça!
Apparicio Silva Rillo (1931-1995) foi outro dos grandes nesta
matéria. Natural de Porto Alegre e criado em Guaíba,
já numa beira de rio (ou lago, como se define hoje), mudou-se
para São Borja, na beira do rio Uruguai, que cantou de todas
as maneiras imagináveis, em causos, poemas e letras de música.
Vale lembrar o começo de um poema clássico seu, “Romance
de dona Moça”:
Quando meu rio Uruguai,
que é meu e de todo mundo,
dava curso e dava fundo
a buques de vigilância
com cachoeiras de rodas;
quando meu rio Uruguai,
que é meu e das lavadeiras,
viu balançarem bandeiras
de dois países nos mastros;
quando meu rio Uruguai
viu recruzarem flotilhas
rindo em boca de canhões;
quando meu rio Uruguai
dava curso a embarcações,
dona Moça era mocita.
Os grande narradores
Na pena dos maiores romancistas do Rio Grande a água não
poderia ser elemento secundário, como se pode imaginar. Lendo
com o cuidado que muitas vezes não temos, as narrativas desses
escritores contam muito sobre o quanto a vida está ligada
à água.
Comecemos por uma cena triste, quase trágica, que está
no final de O louco do Cati, romance meio fantasmagórico,
e genial, de Dyonélio Machado (Quaraí, 1895-1985).
O personagem central, depois de um périplo alucinado por
vários estados brasileiros, sempre na mesma inconsciência
que vai deixando o leitor num estado de crescente angústia,
reencontra-se com seu torrão natal (que por sinal é
o mesmo do autor), onde corre o arroio Cati, que transbordou após
intensa chuva. E lemos:
 |
Já de longe vinha enxergando algumas coisas estranhas
sobre aquela elevação, à margem do arroio.
(O Cati estava mesmo campo fora.)
A água estendia-se com um brilho de metal. Nem a gente via
ela se mover. Mas corria — para o rio que tem mudado tanto
de pronúncia, na fronteira de dois povos inquietos.
O céu começava a se movimentar. As nuvens iam todas
para um lado (lá para muito longe). E iam numa disparada.
Já não chovia. Pouco a pouco, o pasto começava
a sair da sujeira do dia chuvoso, como se naquele mesmo momento
brotasse, verde, do chão. Uma barra até, dum azul
puro de louça ou de cetim, alargava-se aos poucos no horizonte,
à sua frente.
O espetáculo do extravasamento de um curso d’água
pode ser simbólico de muita coisa, especialmente numa região,
como o pampa, que se caracteriza por regimes relativamente fortes
de seca, nos verões, e nunca por rios caudalosos. Não
por outro motivo, o romancista Cyro Martins (também natural
de Quaraí, 1908-1995) salientará a presença
ou a escassez de água em várias de suas obras. Em
Sem rumo (1937), flagra a sede de um sujeito, um pobre do campo,
que sai para saciá-la, tomando água da pipa. Era meia-noite,
com lua cheia, e ele sai, temeroso, ao encontro da água salvadora:
O barril ficava entre quatro cinamomos. No chão, enredavam-se
sombras grossas de tronco, sombras mais finas de galhos e sombras
miudinhas de folhas. Da ponta do cabeçalho pendia, dependurada
pela alça de arame preto, a lata grande de encher a pipa.
Felipe se aproximava. Já agora o medo lhe impedia até
mesmo de fechar os olhos, arregalados e fixos no chão.
Para encerrar este passeio pela água na literatura gaúcha,
nada mais adequado que retomar a obra do maior de todos, Erico Verissimo
(Cruz Alta, 1905-1975), que em sua obra-prima, O tempo e o vento,
fez constar a água em inúmeras cenas. Especialmente
na primeira parte, o extraodinário O continente,
este precioso líquido compõe quadros de grande dramaticidade.
Como por exemplo na cena em que Ana Terra, ouvindo um ruído
perto da sanga, vai até lá, um pouco já sabendo
que ali encontraria o corpo de Pedro Missioneiro, que ali começaria
sua vida adulta. “Deitou-se à beira da sanga, puxou
a saia para cima dos joelhos, mergulhou as pernas na água,
com um débil suspiro de alívio, e cerrou os olhos”,
diz o narrador.
Mas já a cena inicial de todo o monumental romance faz constar,
no centro dramático da ação, a água.
O Sobrado, casa da família Terra Cambará, está
cercado; estamos no meio de um episódio da Revolução
Federalista, a sangrenta revolução da degola; entre
as forças que dão cerco à casa, está
o peão Liroca, que em algum momento do passado chegou a alimentar
alguma fantasia por Maria Valéria, a solteirona do Sobrado,
uma mulher de fibra e coragem que agora o rechaçaria até
o inferno. E Liroca acaba de posicionar-se no alto da Igreja, na
torre do sino, para vigiar o Sobrado, para impedir que qualquer
indivíduo saia lá de dentro, E por que sairiam? O
narrador nos conta:
A ordem era clara: se alguém viesse buscar água
no poço, ele devia fazer fogo. Água... Água
para Maria Valéria. Água pros sitiados. Água
pra D. Alice. Água pros meninos. Água para a velha
Bibiana. O pior de tudo era haver mulheres e crianças dentro
do casarão.
Água essencial para a vida, água de poço
que mataria a sede e manteria viva a família talvez mais
conhecida de toda a história do sul do Brasil, a família
ficcional inventada por Erico. Água, mote do cerco ao Sobrado,
centro da vida de todo mundo.
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