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Uma empresa de economia mista foi fundada há quatro décadas
para estender a rede de abastecimento de água e esgoto
sanitário no Rio Grande do Sul e contribuir para a melhoria
da saúde e qualidade de vida da população.
Durante sua trajetória, até alcançar seis
milhões de pessoas, foi necessário planejar e
construir estações de tratamento, barragens perfurar
poços profundos e aprender com a experiência de
técnicos e trabalhadores, que, nos últimos cem
anos, cooperaram para solucionar os problemas críticos
do setor. |
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| CORSAN, 40 anos
Dos pioneiros
ao século XXI:
histórias do tempo das águas |
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Omar L. de Barros
Filho,
jornalista, com a colaboração de Sylvia Bojunga,
Ademar Vargas de Freitas e Fernanda Fogliati |
Em meados da década de 60, o Brasil viveu período
de extrema perturbação política e econômica.
Mergulhado em um regime autoritário, o país mal conseguia
refletir sobre os novos fenômenos sociais que passaram a fazer
parte de sua existência. Entre eles, um dos mais significativos
foi o acelerado processo de urbanização iniciado no
período do Estado Novo (1937-1945), mantido na década
de 50 e tornado mais agudo ainda na etapa seguinte.
Ao longo dos últimos 40 anos, cerca de 80% da população
brasileira passou a habitar cidades, deixando de lado a vida rural
e rompendo de forma definitiva com velhos parâmetros. O Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) comprova que,
em 1950, 36% da população era urbana; em 1960, 44%;
em 1970, 55%; em 1980, 67,5%; em 1980, 74%; atingindo 80% no ano
2000.
A situação foi agravada pela explosão demográfica,
que, mesmo com a disseminação da pílula anticoncepcional,
resultou em mais cem milhões de novos cidadãos incorporados
ao contingente nacional.
À força dessa transformação, que ocorreu
com muito mais vigor nas camadas basilares da pirâmide social,
foi necessário, então, criar condições
para enfrentar o desafio da mortalidade infantil, da ocupação
irregular do espaço urbano, da ampliação da
área de serviços, da industrialização
crescente e da cristalização do mundo rural. A metropolização
em curso, concentrada nas cidades do entorno das grandes capitais,
teve como conseqüência o agravamento da pobreza das periferias
e pressões adicionais sobre o meio ambiente, com impacto
nos cursos de água, alvo de despejo de dejetos e lixo.
Onde não havia água tratada e esgoto, o prejuízo
foi ainda maior aos rios, riachos, lagoas, e até mesmo ao
lençol freático, também poluído. Não
é de admirar, portanto, nos limites dos grandes centros urbanos
sem a adequada infra-estrutura, a ocorrência de surtos de
diarréia, verminoses e outras enfermidades originadas em
parasitoses. É necessário acrescentar a esses fatores
outros igualmente importantes, como a atividade imobiliária
especulativa, impactante sobre o patrimônio ambiental.
“Nós estamos vivendo a fase da urbanização,
caracterizada por sociedades densas, cidades com altas densidades
de concentração humana, economia de consumo e de controle,
ação sobre a paisagem de substituição:
uma pastagem se transforma num loteamento, uma área de floresta
se transforma numa pastagem. O vestuário é de fazendas,
e o abrigo é de pedra e tijolo, de madeira e produtos sintéticos”,
resumiu o ambientalista Maurício Andres, em Curitiba, durante
palestra para jornalistas em reunião preparatória
para a ECO-921.
Nova perspectiva
As tensões da época serviram para enterrar velhas
e inadequadas políticas governamentais. Estas não
mais correspondiam às necessidades criadas pela urbanização
vertical, educação e saúde insuficientes, carência
de recursos para investir em programas de preservação,
e ausência de uma cultura voltada aos valores e proteção
dos bens públicos.
A fundação da Companhia Riograndense de Saneamento
(CORSAN) colocou a iniciativa do estado no centro da agenda administrativa,
que buscava respostas para confrontar, no plano regional, os problemas
provocados pelo vertiginoso processo. A assembléia de constituição
da empresa foi realizada no salão nobre do Palácio
Piratini, na tarde de 28 de março de 1966, precedida pela
publicação da Lei nº 5.167, de 21 de dezembro
de 1965, e do Decreto nº 17.788, de 4 de fevereiro de 1966,
que autorizavam e regulamentavam a entrada em funcionamento da CORSAN.
| Arquivo Corsan |
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A CORSAN
foi criada em 1966 por ato do governador
Ildo Meneghetti (em pé, ao centro) |
A empresa, uma sociedade anônima de economia
mista, nascia com a finalidade de realizar estudos, projetos, construção,
operação e exploração dos serviços
públicos de abastecimento de água potável e
de esgotos sanitários, entre outras atividades afins.
O primeiro diretor-presidente, arquiteto e urbanista Waldyr José
Maggi, 73, ex-secretário estadual de Obras Públicas,
relembra o episódio 40 anos depois:
“Era o desafio pessoal. Foi um encontro de ações
diferenciadas na convergência e convivência de ideais
comuns que resultou no entendimento dos contraditórios políticos.
Frente a um planejamento programado e definido a longo prazo, conseguimos
superar intransigências e impasses com as obrigações
e encargos de Estado, devidamente destacados e afastados de eventuais
conflitos, objetivando-se o bem-estar social.”
Também o engenheiro civil aposentado Alvicto de Farias,
82, que foi o primeiro chefe do Departamento de Obras da Companhia,
recorda o início da CORSAN:
| Tuti Flores |
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Alvicto
de Farias |
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“Com algumas exceções, todo
o pessoal da Secretaria de Obras foi transferido para a nova empresa.
Naquela época, ainda não tínhamos a idéia
correta da dimensão que a CORSAN iria ganhar. Ela cresceu
muito mais do que esperávamos. Havia carência de recursos
para execução de obras, e o número de funcionários
era pequeno. Mas, com sua organização e estruturação,
o desenvolvimento da Companhia passou a ser contínuo. Isso
beneficiou a população, cujo padrão de vida
melhorou enormemente. Muitas vezes, a comunidade se abastecia em
poços poluídos. A falta de rede de esgotos era resolvida
por meio de escavações primitivas. Quando eu era criança,
em Santa Rosa, buscava água em uma fonte, com um carrinho,
a uma distância de dois quilômetros de minha casa. Hoje,
a cidade inteira tem água disponível nas torneiras
e se desenvolveu muito.”
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1 A Conferência das Nações Unidas sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento – ECO-92, como ficou conhecida,
ocorreu em junho de 1992, no Rio de Janeiro. Na etapa preparatória,
foi desenvolvido o “Seminário para jornalistas sobre
população, meio ambiente e desenvolvimento”,
em Curitiba, Paraná. A declaração do então
secretário de Meio Ambiente de Belo Horizonte, Maurício
Andres, consta dos anais do encontro.
Os pioneiros, passo
a passo
Um século antes do surgimento da CORSAN, foi implantado o
primeiro sistema público de abastecimento de água
em Porto Alegre (1864), que começou atendendo 2.625 ligações
prediais, sobre uma modesta rede de distribuição de
5.300 metros para uma população de 40 mil habitantes.
Na capital, as obras iniciais da rede coletora de esgoto começaram
em 1906, e foram dadas como terminadas seis anos mais tarde.
Em Pelotas, o sistema de abastecimento de água inaugurou
sua operação em 1913. Em 1918, a rede coletora da
cidade foi concluída. Rio Grande, depois de muitos atrasos
em um projeto datado de 1909, convocou o ilustre sanitarista e engenheiro
fluminense Saturnino de Brito, que foi responsável pelos
principais estudos urbanísticos e de saneamento em 55 cidades
brasileiras. Em 1917, durante uma visita ao estado, Saturnino de
Brito observou criticamente a situação em torno do
único porto marítimo do Rio Grande do Sul:
“A execução das obras de saneamento foi
adiada porque faltava, ao que parece, a coragem para arcar com as
despesas orçadas e realizar o plano organizado por Juvenal
Muller. No entanto, as necessidades públicas se tornaram
de tal modo prementes que a cidade está disposta a sanear-se
por um preço duplo do anteriormente traçado.”
| Arquivo Corsan |
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| Estação
de tratamento de água de Uruguaiana, em 1934 |
O quadro, no início do século, era mesmo preocupante,
segundo descrição do engenheiro civil Ernesto Antonio
Lassance Cunha, em “O Rio Grande do Sul – contribuição
para o estudo de suas condições econômicas”,
publicado em 1908, pela editora Imprensa Nacional:
“Nenhuma das cidades daquele estado possui ainda uma boa
rede de esgoto e bom abastecimento de água. Não admira,
pois, que a febre tifóide, a moléstia das cidades
não saneadas, se manifeste com maior ou menor freqüência,
predominando nos centros populosos e na estação calmosa.
É de esperar que tal inconveniente comece a desaparecer dentro
em breve, com a execução das obras de saneamento que
as municipalidades de Porto Alegre e Pelotas tratam de realizar
e que se estenderão sem demora às outras cidades.
(...) A tuberculose, o maior flagelo da humanidade, existe também
no Rio Grande do Sul e ataca de preferência os indivíduos
que vivem em más condições de higiene, como
acontece com a classe pobre das cidades adiantadas. Entretanto,
está longe de apresentar a extensão que se nota na
maior parte do mundo civilizado.”
Os pioneiros que fizeram a história deixaram suas marcas
na Comissão de Saneamento do Estado, criada em 1917, para
orientar, coordenar e fiscalizar a execução das obras
hidráulicas nas regiões gaúchas, tal como ocorreu
na cidade de Rio Grande e em outras que se seguiram. Até
então, possuíam serviços de água e esgoto
somente a capital, Pelotas e Rio Grande. O sistema de esgoto sanitário
de Bagé foi iniciado em outubro de 1918, incluindo 656 instalações
domiciliares, com extensão de 32.298 metros. São Leopoldo
contava apenas com água.
Em geral, os recursos financeiros necessários à execução
de tais projetos originavam-se nos cofres das prefeituras municipais,
que estabeleciam as tarifas e as normas operacionais, e ainda nas
próprias comunidades. Mas, o crescimento populacional (em
1916, o território gaúcho abrigava em torno de 1.840.000
habitantes) e o conseqüente aumento do consumo obrigou os técnicos
a pensar na implantação e extensão de novas
redes de água e esgoto, visto que o problema não podia
ser resolvido apenas no interior de cada lote habitacional. Assim,
um relatório da época informava sobre estudos adicionais
destinados às localidades de Taquara, São Leopoldo,
Cachoeira, São Gabriel e Uruguaiana.
Passo a passo, o Rio Grande do Sul aprendia a fazer seu trabalho,
ao mesmo tempo que eram estabelecidas as bases para o planejamento
em âmbito regional, assim como o desenvolvimento de novas
metodologias e técnicas. O processo de tratamento de então
abrangia a aplicação de produtos químicos,
decantação de fluxo horizontal, filtração
e desinfecção com cal clorada, sem a ênfase
que atualmente é dada ao processo de floculação2.
A fase heróica, que contara com a obstinada e competente
contribuição de Saturnino de Brito, morto durante
visita às obras de Pelotas, em 10 de março de 1929,
foi dada como encerrada a partir do ano de 1936, quando a Comissão
de Saneamento do estado foi transformada em Diretoria de Saneamento
e Urbanismo da Secretaria de Obras Públicas. Foi o início
de uma nova etapa em que as prefeituras, através de convênios,
concediam ao órgão estadual a responsabilidade pela
implantação, ampliação e exploração
dos serviços de água e esgoto. Os acordos incluíam
planejamento, projeto, execução e administração
dos serviços.
As graves dificuldades na área de saúde pública
passaram a ser encaradas por um outro ponto de vista, o que provocou
maior participação do estado, valorização
do setor de planejamento, unificação de tarifas e
a conseqüente classificação dos consumidores
de acordo com o tipo de utilização da água
– domiciliar, pública, industrial ou comercial.
| Arquivo Corsan |
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No inicio
do século XX, o engenheiro Saturino de Brito planejou
o saneamento e implantou obras em cidades gaúchas.
Imagem de Taquara em 1920 |
O estado no centro
Em 1944, o secretário Walter Jobim, que mais tarde ocupou
o cargo de governador do Rio Grande do Sul, enviou correspondência
para o interventor Ernesto Dornelles, que estava à frente
do executivo gaúcho, defendendo a idéia da criação
de um plano de saneamento que contemplasse o estado em sua totalidade:
“O panorama é simplesmente contristador. Já
é tempo de devolver ao povo, em obras de utilidade, uma parcela
justa das contribuições seculares que foram feitas
ao erário público. E talvez nenhuma lhe seja tão
útil porque lhe preservará a saúde tão
perigosos males. Na marcha em que vamos não podemos prosseguir.
Restam 67 cidades sem saneamento e outros tantos núcleos
de população numerosa.”
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2 Etapa do tratamento da água em que ocorre
a coagulação do material coloidal e em suspensão,
de forma mecânica, química e/ou hidráulica,
na qual as partículas de tamanho coloidal são agrupadas,
em partículas maiores chamadas flocos, pela ação
de substâncias químicas (coagulantes) e agitação
adequada da água.
Floculação: criação de flocos de impurezas
por precipitação; coagulação.
| Arquivo Corsan |
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| No passado, os aguadeiros foram
personagens do cotidiano dos gaúchos |
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| Arquivo Corsan |
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Modernização
e preservação da memória nos 40 anos
da CORSAN |
Um ano depois, o governo gaúcho obtinha os
meios para o financiamento do plano geral de saneamento, cujo objetivo
era permitir a execução de obras de abastecimento
de água em todas as sedes municipais que não usufruíam
do serviço, e ainda obras de esgoto cloacal em cinco das
principais cidades. A inquietação de Walter Jobim
não era despropositada. Quando o plano foi elaborado, o Rio
Grande do Sul era dividido entre 88 municípios e mais quatro
que estavam sendo instituídos. Entre as 92 localidades, somente
17 possuíam abastecimento regular (com instalação
para tratamento de água), uma recebia obras de implantação,
e quatro tinham sistemas apoiados em águas retiradas de dunas
e poços profundos. Entre elas, apenas 15 apresentavam serviços
de esgoto. As outras enfrentavam precariamente a situação.
Não havia exageros na mensagem de Walter Jobim a Ernesto
Dornelles:
“Por sua conta o Estado já fez o saneamento de
Torres e São Gabriel. O serviço de Rosário
está em construção. Pelo tempo de uma obra
destas serão necessários 134 anos para completar o
saneamento do Estado. Pode-se bem compreender a que extremos se
agravaria a situação calamitosa das populações
e a quanto atingiria o índice de mortalidade, agravado pela
falta de higiene.”
A emergência era tão grave que, obtidos os recursos
federais para a execução do plano, foi necessário
que o governo estadual estabelecesse critérios e pontuações
para definir as localidades que receberiam o benefício das
obras. Os índices obtidos permitiram calcular os coeficientes
relativos a cada cidade, após a realização
da soma de cada um deles, para chegar à classificação
final. Eram eles:
a) mortalidade específica – 35 pontos;
b) população – 25 pontos;
c) valor econômico – 15 pontos;
d) situação geográfica – 15 pontos;
e) interesse político – 10 pontos.
Em 18 de novembro de 1949, o jornal Gazeta do Sul, de Santa Cruz
do Sul, noticiava:
“Auspiciosa para a população santa-cruzense
pode ser considerada a data de ontem em que ficou oficialmente iniciado
o fornecimento de água potável da nova Hidráulica
que o Estado acaba de construir nesta cidade, nos altos da Bela
Vista, por intermédio de seu engenheiro Vitor Keunecke. Para
o ato da primeira ligação foi escolhida a residência
do vereador Carlos Baumhardt, onde compareceram o prefeito Alfredo
Kliemann, os engenheiros Amadeu da Rocha Freitas, Otavio Figueira
e Waldemar Cantergi, da Secretaria de Obras Públicas. A Hidráulica
dispõe de várias equipes de instaladores, com capacidade
para 30 ligações diárias cada uma. Deverão,
portanto, os interessados procurar os escritórios da administração
local.”
| Arquivo Corsan |
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Construção
da hidráulica de Gravatai |
O plano de execução dos serviços
de água e esgoto previa o cumprimento de pré-requisitos
determinados pela contratação do empréstimo
tomado junto à Caixa Econômica Estadual, garantido
pela situação financeira do estado e pela rentabilidade
dos serviços. Assim, ficou estabelecido o pagamento cooperado
entre os proprietários dos terrenos, o estado e o município.
A parcela dos particulares deveria ser calculada sobre o valor do
imóvel, 1,2% para os servidos por rede de água e 1,2%
para os que recebessem rede de esgoto. A cobrança da taxa
iniciaria com as obras e seria exigida durante 20 anos. Já
a parte dos municípios deveria ser formada por um percentual
de suas receitas ordinárias, ao longo do mesmo período.
Ao governo do estado caberia a cobertura da diferença entre
as despesas de amortização e juros de cada parcela
do empréstimo, e as arrecadadas dos particulares e municipalidades.
De qualquer modo, passando ao largo dos acordos financeiros, a questão
do saneamento mobilizou as comunidades, tal como ocorreu em Santa
Cruz do Sul, onde grandes mutirões foram organizados para
viabilizar o projeto. O funcionário da CORSAN, Soly Oliveira,
lembrou do fato em documento publicado pela empresa em 1991:
“Certa vez precisamos descarregar cinco vagões
com tubulações de 60 a 400 milímetros. O revezamento
– eram mais de 200 homens trabalhando – “varou”
a noite. E logo essas tubulações ganharam seu lugar,
escondidas no interior da terra, mas sempre presentes levando água
a todas as casas.”
| Arquivo Corsan |
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Apesar dos
problemas, as obras de saneamento prosseguiam no interior
do Rio Grande do Sul |
Novo tempo,
nova política
No ano de sua fundação, os quadros diretivos e técnicos
da CORSAN tratavam de elaborar planos emergenciais para atender
às crescentes demandas das comunidades do Rio Grande do Sul,
que apresentava, na área de saneamento, o seguinte cenário:
• 6.650.000 habitantes (população urbana e rural);
• 234 municípios, com uma população urbana
de 3.150.300 habitantes em suas sedes;
• dos 112 municípios com serviços de abastecimento
de água, apenas 64 apresentavam tratamento
clássico completo, o equivalente a 48,2%;
• do total, apenas 19 sedes municipais (8%) eram beneficiárias
de rede de esgoto sanitário.
Verdadeiro paradoxo, o Rio Grande do Sul ainda mostrava números
positivos em comparação com outros estados brasileiros.
A esperança era fruto da fria estatística: 86 localidades
desprovidas de água nas torneiras abrigavam população
inferior a cinco mil pessoas, que implicava maiores custos operacionais
e baixa rentabilidade industrial. Mais tarde, o fato transformar-se-ia
na pedra de toque da política de fortalecimento da empresa,
que, criaria uma tarifa comunitária, de sentido horizontal
e democrático.
Os esforços iniciais logo mostrariam sua eficácia
e os números começariam a ceder.
Antes mesmo do início dos anos 70, a CORSAN ampliara sua
abrangência, aumentara seu capital inicial em quatro vezes
e meia, e executava programas de investimento e obras, com recursos
próprios. Paralelamente, 33 meses após sua fundação,
elaborou o Programa Global de Necessidades nas Áreas de Saneamento
Básico e do Abastecimento de Água, que nortearia as
ações no período seguinte.
No campo administrativo, foram determinados os limites de 40% da
receita para pagamento de pessoal e 30% para novos investimentos.
O quadro de carreira também foi implantado, com a definição
da estrutura de todos os órgãos e atribuições
dos funcionários, que passaram a receber cursos de formação,
preparação e aperfeiçoamento.
| Arquivo Corsan |
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Barragem
de Lavras do Sul, 1956 |
Eurico Trindade Neves, engenheiro civil e mecânico,
hoje com 86 anos, rememora:
| Tuti Flores |
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Eurico Trindade
Neves |
“No início, eram os municípios
os res-ponsáveis pelos investimentos. Depois o estado passou
a operar no setor, bem como administrá-lo e arrecadar as
taxas de manutenção, embora algumas prefeituras tenham
preferido manter o controle. Porém, algumas complicações
de ordem legal apareceram. As regras do Código de Contabilidade
Pública eram rígidas, o que comprometia a eficiência
dos serviços. A legislação, com seus formalismos,
não previa, é claro, o conserto de uma bomba de água
que estourasse em uma esquina. Não havia rapidez e elasticidade.”
A CORSAN passou a representar a solução para
problemas seculares, que entrevavam o saneamento e impediam que
o Rio Grande do Sul transformasse crises em oportunidades.
A Folha da Tarde, em editorial de 3 de junho de 1968, imprimiu posição
favorável:
“(...) Criada a Companhia Riograndense de Saneamento há
pouco mais de dois anos, com pleno apoio da Assembléia Legislativa,
o setor foi submetido a uma radical transformação.
Esse tipo de sociedades industriais para a exploração
de determinados serviços públicos essenciais, com
o seu regime próprio de funcionamento, vem sendo recomendado
como ideal pelas agências financeiras internas e externas.”
Também o jornalista Ary de Carvalho, em editorial publicado
em Zero Hora, de 19 de julho de 1968, registrava seu otimismo:
“(...) E a razão principal da eficiência
da CORSAN reside no fato de se tratar de uma empresa de economia
mista, totalmente liberta dos entraves que a estrutura das repartições
públicas opõe ao trabalho construtivo. Dirigida por
gente moça, administrada segundo métodos modernos,
a CORSAN vai resolvendo problemas que reclamavam há muitos
anos a atenção dos governos.”
A edição do Correio do Povo, de 14 de setembro
de 1968, também apoiava o trabalho:
“(...) Certamente que muito ainda resta por fazer-se nesse
setor, como no que diz, por exemplo, com a complementação
dos serviços de água potável pelo de esgoto.
Mas, a levar-se avante a política de saneamento com o impulso
que se vem anotando, não haverá de tardar a era da
implantação definitiva, em todas cidades gaúchas,
de serviços nas mais completas condições, ou
seja, dentro do binômio: água e esgoto.”
O “milagre brasileiro”, no final dos anos 60, encontrou
a empresa suficientemente preparada para adaptar-se às novas
regras e rumos ditados pelo Governo Federal. Entrava em cena o Banco
Nacional da Habitação (BNH), que se tornou órgão
exclusivo para o financiamento de obras de saneamento no país.
O Plano Nacional de Saneamento (Planasa), criado em 1971, permitiu,
por exemplo, a implantação da grande Estação
de Tratamento de Santa Maria e do Canal Adutor de Rio Grande, considerado
por muitos especialistas como a obra do século. Medindo 24km,
o canal São Gonçalo conduzia a água até
uma estação de tratamento com capacidade para processar
1.200 litros por segundo. Os mananciais disponíveis, na região,
eram de baixo potencial, chegando a desaparecer em épocas
de estiagem. O São Gonçalo apresentou-se como a melhor
fonte de abastecimento.
| Arquivo Corsan |
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Obras da
adutora de Santa Maria, em 1968 |
As decisões sobre as políticas públicas dirigidas
ao setor pelo Governo Federal, porém, eram centralizadas,
não levando em conta a opinião dos técnicos
que serviam no âmbito regional.
| Arquivo Corsan |
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| Detalhe
do antigo reservatório de Rio Grande, hj transformado
em centro cultural |
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| Arquivo Corsan |
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| Captação
de água em Capão da Canoa, em imagem de 1972 |
De acordo com o engenheiro e historiador Luiz Antônio Timm
Grassi, membro da seccional gaúcha da Associação
Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), os
técnicos do Planasa impunham padrões, aceitos sem
muita discussão no Norte e Nordeste do país. Nos estados
do Sul, entretanto, mais desenvolvidos do ponto de vista tecnológico
e profissional, os profissionais do setor confrontavam-se com as
equipes do BNH. “Apesar disso, houve forte investimento na
capacitação profissional, quando em outros países
do mundo estavam sendo desenvolvidas pesquisas e surgiam novas formas
de tratamento de água e esgoto”, conta Grassi. “Foi
naquela época que, nos países em desenvolvimento,
a população urbana aumentou e a industrialização
ganhou novos rumos. O fenômeno da poluição começou
a entrar na ordem do dia das preocupações ambientais.”
Porém, o sistema federal de financiamento entraria em colapso
após 1983, mergulhando o setor em mais uma etapa de graves
dificuldades.
De qualquer modo, a Companhia ainda encontrou razões para
comemorar os resultados positivos de sua trajetória: no dia
26 de maio de 1983, a CORSAN completou, em uma residência
de Camaquã, um milhão de ligações.
Cinco anos depois, em 1988, ao completar 22 anos de funcionamento,
os registros apontaram a existência de 272 unidades de saneamento,
13.962.000 metros de rede de distribuição e mais de
30 milhões de metros cúbicos de água distribuídos.
Mesmo carente de recursos originados em financiamentos de longo
prazo, a empresa tratava de colher os resultados de seus investimentos
e multiplicar o número de consumidores.
Em comunicado à população, a CORSAN festejou:
“O simples ato de abrir uma torneira, repetido milhares
de vezes ao dia pelos gaúchos servidos pela CORSAN, representa,
além do recebimento de água tratada de acordo com
os padrões de potabilidade estabelecidos pela Organização
Mundial de Saúde, mais saúde e bem-estar, menores
gastos com saúde pública, menos investimentos em hospitais,
menor índice de mortalidade infantil.”
Em cena, a sociedade
civil
Pouco a pouco, em meio à crise, outro personagem entrou na
cena política. Insatisfeita com a trajetória do país,
a sociedade civil tratou de mobilizar-se por liberdades democráticas
e melhores condições de vida. O movimento ambientalista
transformou-se em desaguadouro natural do descontentamento, como
de resto ocorreu em outros países, especialmente da Europa.
Ex-presidente da ABES-RS, a engenheira-química Maria Lúcia
Coelho da Silva, da Fundação Estadual de Proteção
Ambiental (FEPAM), recupera parte da história relativa às
ações de proteção do meio ambiente,
que começaram a surgir a partir da Conferência de Estocolmo,
em 1972:
“Foi no final de 70 e início dos anos 80 que o
setor tomou corpo. Em Estocolmo, o discurso brasileiro defendia
o desenvolvimento a qualquer custo, mas a posição
não se sustentou na década seguinte, quando até
estava sendo criado o Conselho Nacional de Meio Ambiente, que definiu
regras de participação da sociedade na elaboração
de uma política para o setor. Naquele contexto, a ABES também
se modificou e passou a ampliar suas ações na área.”
No Rio Grande do Sul, a tendência não era diferente.
Após algumas ações isoladas e de grande impacto
nos meios de comunicação, o movimento ambientalista
ganhou maior organização e expressão. A esfera
estatal também reagiu e abriu-se a experiências e práticas
adotadas por outros governos igualmente envolvidos na defesa e na
modernização da gestão dos recursos hídricos,
cada vez mais escassos, caros e agredidos.
O engenheiro Percy Antônio Pinto Soares, que presidiu a ABES-RS
no período de 1977-1979, lembra de fatos significativos,
que determinariam ações no futuro:
“Técnicos do DMAE, CORSAN e Metroplan desenvolveram,
em conjunto, o relatório A situação do saneamento
nas áreas críticas do Rio Grande do Sul.
E, no final da década de 70, juntamente com Gonzaga Fagundes,
secretário de Obras e diretor da CORSAN, estruturamos um
convênio entre DMAE e CORSAN, em relação ao
Projeto Rio Guaíba.”
Nessa direção, foi relevante a adoção
da idéia de que a gestão por bacia hidrográfica
é mais eficiente do que a abordagem pontual. Assim, o Governo
Federal criou Comitês de Estudos Integrados em algumas das
mais importantes bacias de rios federais. No Rio Grande do Sul,
por sua importância estratégica, e mesmo sem conter
um curso de água federal, foi instalado, primeiramente, o
Comitê Executivo de Estudos Integrados da Bacia do Guaíba,
em 1979. “O CEEIG aglutinou entidades federais, estaduais
e municipais, sistematizou conhecimentos com base em estudos existentes
e chegou a propor um enquadramento dos principais corpos de água
por classe de uso”, de acordo com documento sobre a formação,
dinâmica interna e tendências dos Comitês de Gerenciamento
de Bacias Hidrográficas3, que, por seu valor, hoje é
referência original e obrigatória para os pesquisadores
do assunto.
| Arquivo Corsan |
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Inauguração
da moderna Estação de Tratamento de Esgoto de
Tapes |
Um segundo fato importante, conforme os autores, foi a criação,
por decreto do Governo Estadual, em 1981, do Sistema Estadual de
Recursos Hídricos, tendo à frente o Conselho de Recursos
Hídricos do Rio Grande do Sul. A iniciativa previa dois tipos
de comitês de bacia: em um deles estariam agrupados os órgãos
e representações oficiais; em outro, as organizações
não-governamentais. A medida, que não frutificou,
era exigência do governo central para liberação
de recursos destinados à irrigação de lavouras.
Também o intercâmbio com especialistas e pesquisadores
de outros países, em seminários e encontros, contribuiu
para a percepção de que era chegado o momento de modernizar
a gestão das águas gaúchas, buscar novas políticas
de preservação e conservação dos recursos
hídricos, contemplando, ao mesmo tempo, os anseios de participação
da população e de suas organizações.
O diálogo entre as instâncias públicas e a sociedade
civil resultou na criação do Comitê de Preservação,
Gerenciamento e Pesquisa do Rio dos Sinos, em 1988, o primeiro do
Brasil considerado rio estadual, e, no ano seguinte, o Comitê
do Gravataí, rio poluído e alvo de agressões
de todo tipo. O exemplo foi reproduzido em outras regiões
do território gaúcho. O surgimento de novos comitês
contribuiu para a qualificação do planejamento, recuperação,
utilização racional e regularização
da oferta hídrica, estabelecendo padrões democráticos
de representação e resolução de conflitos
em cada bacia hidrográfica.
A sociedade civil influiu na concepção e promulgação
das constituições brasileira e rio-grandense, alargando
ainda mais a responsabilidade da cidadania e o controle sobre a
correta gestão do patrimônio ambiental público.
Alinhada com a defesa do uso sustentável dos recursos hídricos,
a CORSAN participou ativamente no desenvolvimento da rede de Comitês
de Gerenciamento, que, até o início de 2006, contava
com 26 componentes.
Atual presidente da ABES-RS, o químico Geraldo Portanova
Leal, com mandato até 2007, defende a concepção
dos comitês de bacia como espaço democrático
e participativo:
“Os comitês permitem o desenvolvimento de experiências
muito ricas, entre elas a possível criação
de instrumentos para o pagamento pelo uso das águas. A cobrança
terá o sentido de promover o equilíbrio no uso, seja
para o consumo humano e animal, irrigação de lavouras,
mineração ou lazer. Quem decidirá as condições
em que isso ocorrerá serão os componentes dos comitês
que formam o “parlamento das águas”, ou seja,
40% representantes da população, 40% dos usuários
e 20% do estado, que participa como regulador, embora o poder de
decisão pertença à sociedade.”
Otimista, Geraldo Portanova considera que é necessário
construir uma consciência coletiva voltada à importância
da preservação do ambiente natural, para alcançar
a sustentabilidade do uso dos recursos disponíveis na natureza:
“Passamos muito tempo sem nos preocupar com a questão
da sustentabilidade em comparação com o tempo em que
estamos atuando para modificar essa situação. E é
muito mais difícil reconstruir do que conservar. Hoje é
indiscutível que estamos produzindo menos resíduos
sólidos que no passado, o que causa menos impacto ao ambiente.
Isso é resultado de ações de sustentabilidade.
É claro que os resultados plenos vão ainda demorar
muito. No entanto, é possível notar a diminuição
da velocidade da degradação. Embora a população
do estado tenha crescido e mais indústrias tenham se instalado,
hoje temos uma produção seletiva, que produz, proporcionalmente,
menos resíduos.”
Antecipando dificuldades no futuro, a assessoria da CORSAN,
ainda no início da década de 90, divulgava seu pensamento
dirigido à defesa dos mananciais:
| Arquivo Pró-Guaíba |
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Quando a
poluição afeta os rios é imperativo recuperá-los |
“Exemplificando: se o Rio Vacacaí corre o risco
de ter seu fluxo interrompido a cada estiagem, por conta das demandas
de irrigação, deixando cidades sem água potável,
é preciso estabelecer as cotas de uso, além de viabilizar
as obras que regularizem a oferta hídrica. Se a poluição
transforma o Rio dos Sinos ou Gravataí em canais de águas
servidas, é forçoso recuperá-los e estabelecer
um modus vivendi entre as indústrias e outros usuários,
que garanta o atendimento de sua vocação natural para
as comunidades próximas. Se os córregos e barragens
são rapidamente assoreados por conta do desmatamento e de
técnicas agrícolas predatórias, é preciso
mudar essa técnica e reflorestar rapidamente.”
Especialista na análise de questões ambientais,
a jornalista Cecy Oliveira, que fez parte da direção
regional da ABES, sintetiza:
“O Rio Grande do Sul estava começando a despertar
para a questão dos recursos hídricos de uma forma
mais ampla, a olhar a água a partir das nascentes e não
apenas do ponto de vista do abastecimento.”
| Arquivo Corsan |
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O controle
de qualidade da água é rigoroso nos laboratórios
da CORSAN |
O compromisso da CORSAN com seu programa ambiental refletiu-se
também na entrada em funcionamento do Sistema Integrado de
Tratamento de Efluentes Líquidos (SITEL), a Estação
de Tratamento de Água e o Sistema Centralizado de Controles
de Resíduos Sólidos. As três unidades têm
como foco principal de atuação a área compreendida
pelo Pólo Petroquímico de Triunfo, estratégico
para o desenvolvimento do estado. A operação do complexo
permite monitorar produtos químicos, substâncias não
utilizadas e excedentes de produção originados nas
atividades industriais. O SITEL controla e evita danos aos ecossistemas
e bacias hidrográficas da Região Metropolitana, ao
mesmo tempo que contribui para manter a qualidade ambiental das
ações empresariais em Triunfo, um dos pilares de inovação
tecnológica e sustentação econômica do
Rio Grande do Sul.
Mais recentemente, foi instalada a Central de Tratamento de Efluentes
Líquidos (CETEL), que atua junto de instalações
automotivas em Gravataí, onde busca compatibilizar a proteção,
a legislação ambiental, o interesse público
e o desenvolvimento econômico expresso em indústrias
de ponta. A CETEL está capacitada para tratar os efluentes
líquidos industriais, oleosos, sanitários e todos
aqueles que são originados da pintura eletroforética
dos automóveis fabricados no condomínio, atenuando,
ao máximo, os impactos negativos ao meio ambiente da sensível
região.
O valor das pessoas
O quadro de pessoal da CORSAN constituiu-se inicialmente por técnicos
oriundos das diretorias de Saneamento e Industrial, do Instituto
de Pesquisa de Saneamento e do Serviço de Hidrologia da Comissão
Especial de Obras e Irrigação, que, até 1966,
pertenciam à Secretaria Estadual de Obras Públicas.
Por meio da Lei nº 5.167, esses servidores tiveram assegurados
e mantidos seus direitos e deveres funcionais, assim como os benefícios
relativos à assistência social, e trouxeram para a
nova empresa toda a experiência e o conhecimento acumulados.
Em pesquisa sobre o desenvolvimento dos sistemas de saneamento no
Rio Grande do Sul, divulgada em 1985 pela Assessoria para Preservação
dos Recursos Hídricos da CORSAN, o engenheiro Ítalo
Masuero salientou o valor da contribuição aportada
pelos técnicos que fizeram parte dos quadros da empresa em
sua primeira fase:
“Os fatos não podem ser narrados sem o devido relacionamento
com as pessoas que participaram efetivamente da história
do saneamento no estado, legando à geração
atual um embasamento tecnológico e uma tradição
reconhecida fora de nossas fronteiras.”
Por ocasião dos 25 anos da CORSAN, em 1991, Isaías
Valliatti, que acompanhou o período de fundação
como assessor de imprensa, também atribuiu aos técnicos
pioneiros o rápido crescimento da empresa, em depoimento
publicado na edição especial comemorativa:
“(...) Todos reclamam se falta água ou se o esgoto
transborda, mas poucos sabem valorizar os benefícios do saneamento
básico. Esta é a CORSAN que eu acompanhei desde a
fase de concepção. Produto inegável do destemor
de homens dispostos a enfrentar e resolver problemas, ao invés
de perpetuá-los.”
As ações voltadas ao aperfeiçoamento das
equipes caracterizaram a CORSAN desde o início de sua trajetória.
Já em dezembro de 1968, a empresa registrava, em relatório
de atividades, a organização e a realização
de seis cursos de preparação e aperfeiçoamento
para técnicos em tratamento de água, administradores
de unidades sanitárias, alunos das escolas de Engenharia
e Arquitetura e operadores de máquinas de contabilidade.
Ao completar quatro décadas de atividades, em 2006, a CORSAN
mantém a política de valorização dos
recursos humanos, tratando de promover, sistematicamente, oportunidades
de desenvolvimento profissional e de melhoria das condições
e ambiente de trabalho para seus 4.373 funcionários (em dezembro
de 2005) - mais da metade deles com grau médio ou superior
de escolaridade. A empresa incentiva-os a participar de cursos de
aperfeiçoamento vinculados às atividades e objetivos
corporativos, oferecendo-lhes auxílio financeiro para complementação
dos estudos.
| Arquivo Corsan |
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Oportunidade
de desenvolvimento de quadros técnicos |
Responsabilidade e inclusão
Fundamentais para a saúde pública, o abastecimento
de água e o saneamento são também fatores de
desenvolvimento econômico e de inclusão social. Com
essa visão, a CORSAN tem como metas atualizar as técnicas
de gestão e incorporar, cada vez mais, o atendimento às
demandas sociais ao seu planejamento de atividades. Na década
passada, foi crescente o engajamento e o compromisso assumido pela
empresa no campo da responsabilidade social corporativa.
A principal estratégia de inclusão da população
de baixa renda se dá por meio da tarifa social. Instituída
com o objetivo de contribuir para a redução de desigualdades,
beneficia famílias inscritas em programas governamentais,
cadastradas na categoria residencial social para receber subsídio
de 60% sobre o valor do consumo. Estender o abastecimento de água
a comunidades vulneráveis significa respeitar o princípio
da eqüidade, indispensável ao desempenho de um serviço
público.
O primeiro Balanço Social publicado pela CORSAN, referente
à gestão de 2003, expressa a determinação
da empresa de tornar-se parceira e co-responsável no processo
de desenvolvimento social sustentável:
“Ao expandir a oferta de água e de esgoto no Rio
Grande do Sul, a Companhia trata também de ampliar o diálogo
com as comunidades, atualizando as ferramentas de comunicação
e de interatividade. Exemplares, nesse sentido, são as ações
de educação ambiental e mobilização
desenvolvidas por facilitadores voluntários da empresa, que
divulgam conceitos e informações sobre conservação
e uso sustentável das fontes de água potável.”
Conceitos e práticas de conservação dos
recursos hídricos, noções de saneamento básico
e de desenvolvimento sustentável são difundidos em
todas as regiões do Rio Grande do Sul por meio dos programas
do Departamento de Educação Ambiental (DEPEA), que
integra a Superintendência de Recursos Hídricos e Meio
Ambiente da Diretoria de Expansão da CORSAN. Atuando junto
às áreas técnicas, em integração
com as nove superintendências regionais da empresa, cerca
de 350 facilitadores voluntários da Companhia dinamizam a
agenda estadual do meio ambiente. São esses voluntários
que, em conjunto com escolas, universidades, prefeituras, secretarias
municipais de educação, de cultura e meio ambiente,
instituições públicas e privadas, promovem
ações sistemáticas de mobilização
pela preservação e conservação dos recursos
naturais.
| Arquivo Corsan |
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Centenas
de voluntários da Corsan promovem a educação
ambiental voltada principalmente a crianças e jovens |
Entre as estratégias mais bem-sucedidas adotadas pela CORSAN
estão mutirões de limpeza em rios, açudes e
barragens, caminhadas ecológicas, visitas orientadas a Estações
de Tratamento, apresentações teatrais, oficinas de
arte, atividades lúdicas e pedagógicas envolvendo
principalmente crianças e adolescentes, além de campanhas
de conscientização e apoio a eventos relacionados
ao tema da água. Nas regiões das Missões e
do Planalto, as fortes tradições da cultura e do folclore
gaúcho inspiraram também mateadas e cavalgadas em
defesa do meio ambiente.
Gestão de qualidade
Primeira empresa do Rio Grande do Sul a obter a certificação
de qualidade do INMETRO, de acordo com os padrões da norma
ISO 17025, a CORSAN segue a Portaria 518/2004 do Ministério
da Saúde, mantendo sua acreditação em dia junto
aos órgãos que atestam a qualidade da água.
O processo de análise é totalmente normatizado, desde
a coleta até o armazenamento das informações.
A cada mês, o Laboratório Central da Companhia, responsável
pelo monitoramento, realiza 260 mil análises da água
distribuída aos municípios gaúchos.
Na área administrativa, o Programa de Melhoria de Gestão
(PMG), implantado a partir de julho de 2004, tendo como referencial
os critérios e sistemas do Programa Gaúcho de Qualidade
e Produtividade (PGQP), e do Prêmio Nacional da Qualidade
em Saneamento (PNQS), representou um avanço no sentido
de obter melhorias tecnológicas com otimização
dos recursos públicos.
Os fundamentos principais do PMG são a valorização
das pessoas, a gestão baseada em processos e informações,
a visão de futuro e o foco em resultados. Além disso,
a utilização da ferramenta Balanced Scorecard, como
metodologia de planejamento estratégico corporativo, possibilitou
o alinhamento de objetivos, indicadores e metas das unidades de
saneamento, superintendências regionais e funcionais e diretoria
da empresa.
Em novembro de 2004, a Companhia classificou-se entre as empresas
de saneamento finalistas do PNQS por seu trabalho sobre indicadores
comerciais. Em 2005, pela primeira vez, duas unidades da CORSAN
foram premiadas, Cachoeirinha e Dois Irmãos, sendo outras
quatro distinguidas. Tendo como padrão de referência
as duas unidades premiadas no PNQS, iniciou-se, então, o
processo de qualificação das demais unidades de saneamento.
Outras distinções e reconhecimentos, como o Top of
Mind/2005, na categoria Empresa Pública Eficiente, o Top
de Marketing/2005, na categoria Serviços, bem como as Medalhas
de Bronze no Prêmio Qualidade do Rio Grande do Sul/2005, atestam
que a empresa conseguiu implementar uma nova filosofia de gestão,
baseada no tripé: pessoas, metodologia e tecnologia.
Ao final do exercício de 2005, as ferramentas e processos
do PMG já estavam implementados em 36 unidades, apresentando,
como resultados imediatos, maior controle das despesas, redução
na reemissão de contas de água e esgoto, e aumento
da média de ligações de água e esgoto
por funcionário. À frente do Programa de Melhoria
de Gestão, o engenheiro Eduardo Barbosa Carvalho, chefe do
Gabinete da Presidência da CORSAN, avalia:
“Entendemos que o desafio do momento, para a CORSAN, além
da questão da qualidade, é estreitar o relacionamento
com as comunidades gaúchas e seus representantes. Internamente,
está sendo trabalhada a atitude de compromisso com os resultados
e com a melhoria contínua dos indicadores e fundamentos que
balizam o processo de melhoria de gestão.”
A contadora Elena Raupp, superintendente de Contabilidade da CORSAN
(de 1987 a 1990 e de 2004 a 2006), enfatiza a importância
desse processo:
“Para os colaboradores, isso significa que a empresa tem
gestão e método de trabalho. Sabe o que está
fazendo e para onde está indo. Estamos encontrando o rumo
com método. Para a comunidade como um todo, o resultado é
um serviço com mais qualidade. Hoje estamos trabalhando para
poder atender melhor o nosso cliente, ou seja, ter uma empresa com
produto de qualidade e com garantias de continuidade.”
O Contrato de Gestão firmado em julho de 2003 entre
a CORSAN e o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, com duração
prevista até 2006, também agregou eficácia
e transparência no campo gerencial e no relacionamento da
empresa juntos aos seus públicos estratégicos.
| Arquivo Pró-Guaíba |
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| Arquivo Corsan |
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| A CORSAN,
em 2004, iniciou as obras de recuperação da
barragem de Garibaldi, na região serrana |
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| Arquivo Corsan |
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| Estação
de tratamento de esgotos de Rosário do Sul, em 2002 |
Mais perto das comunidades
A CORSAN estrutura-se em quatro diretorias: Financeira e de Relações
com Investidores, Administrativa, Operação e Expansão.
A cada grande área estão subordinadas as respectivas
superintendências, funcionais e regionais, com seus departamentos.
As nove superintendências regionais da Companhia englobam
as regiões Sul, Litoral Norte, Metropolitana, Nordeste, Planalto
Médio, Missões, Fronteira Oeste, Central e Sinos.
Nos 343 municípios atendidos pela empresa atuam ainda 142
gerências, que atendem às demandas específicas
de cada comunidade. O abastecimento de água nas regiões
urbanizadas chega a 98% da população.
“A regionalização é um marco na história
da CORSAN, porque abriu e descentralizou os serviços, tornando-a
mais próxima do cidadão. Sem falar na desburocratização,
porque foram delegadas certas atribuições aos superintendentes
regionais, que antes eram todas centralizadas em Porto Alegre. Isso
resultou em progresso”, afirma Ubiratan Toscani, ex-superintendente
da Região das Missões, hoje aposentado.
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Arquivo Corsan |
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Visita orientada
a uma estação de tratamento da água |
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Arquivo Corsan |
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A cultura
regional proporciona encontros em que o tema ambiental está
presente |
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