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A Região Hidrográfica do
Guaíba, onde vivem seis milhões de pessoas, concentra
251 municípios e 70% do PIB gaúcho. Para enfrentar
os problemas ambientais mais graves da região, decorrentes
da intensa atividade econômica, industrial e agrícola,
o Programa Pró-Guaíba desenvolve ações
participativas e mobilizadoras de manejo integrado dos recursos
naturais que podem ser replicadas |
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Pró-Guaíba, um exemplo a ser
seguido |
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Vera Lúcia
M. Callegaro
Bióloga, Doutora em Ciências, secretária
executiva do Programa Pró-Guaíba e secretária
substituta da Secretária de Meio Ambiente do Estado do
Rio Grande do Sul |
OPró-Guaíba, um dos maiores programas de manejo integrado
de bacias financiado
pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em toda a América
Latina, foi criado para promover a recuperação da
Região Hidrográfica do Guaíba, gerando benefícios
para a população do Rio Grande do Sul. Integrou setores
envolvidos com a gestão ambiental e viabilizou a participação
das comunidades.
Formada por nove bacias, a Região Hidrográfica do
Guaíba (RHG) desempenha papel crucial na vida econômica
e social do estado. Abrange 251 municípios, responsáveis
por 70% do PIB gaúcho. Nessa área, que representa
30% do território do Rio Grande do Sul, residem mais de seis
milhões de pessoas, dois terços da população
total.
Na época da elaboração do Programa, em 1993,
a intensa atividade econômica, industrial e agrícola
provocava acentuada pressão sobre os recursos naturais. Diariamente,
as bacias recebiam 3,7 mil toneladas de lixo domiciliar, 16,5 mil
litros de resíduos líquidos contaminados com agrotóxicos,
890 metros cúbicos de resíduos industriais e 960 mil
metros cúbicos de esgoto. Nas áreas rurais, a região
era afetada pela contaminação de agrotóxicos,
desmatamentos e ausência de infra-estrutura de saneamento.
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A edução
ambiental é estratégica para o êxito do
Pró-Guaiba |
O Programa de Gerenciamento Ambiental da Bacia Hidrográfica
do Guaíba - Pró-Guaíba foi lançado com
o objetivo de estabelecer as condições necessárias
para a utilização racional dos recursos renováveis
da região hidrográfica, visando à melhoria
de qualidade de vida. As decisões sobre o tema passaram a
ser tomadas pelos Conselhos Consultivo e Deliberativo, formados
por secretários e instituições de estado, ONGs
e por membros de entidades representativas da sociedade gaúcha,
como comitês de bacia hidrográfica, integrando-se ao
Sistema Gaúcho de Gestão das Águas criado em
1994.
O investimento inicial foi de US$ 220,5 milhões, dos quais
60% financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
O Governo estadual destinou os outros 40% ao programa, elaborado
e executado pela Secretaria de Coordenação e Planejamento
(SCP) até 2002. Desde então, passou a ser executado
pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema).
Os recursos foram investidos em 15 diferentes frentes de ação,
entre elas a construção de estações
de tratamento de esgoto, o monitoramento da qualidade da água,
a recuperação de parques e reservas, a conservação
do solo e o apoio à pesquisa científica e à
educação ambiental.
O Programa atuou nos principais problemas ambientais nas áreas
urbanas, principalmente na Região Metropolitana de Porto
Alegre e na Aglomeração Urbana do Nordeste, tais como
a contaminação industrial, a disposição
irregular de lixo e o lançamento de esgotos in natura nos
rios e arroios. Desenvolveu programas de coleta e tratamento de
esgoto, manejo de resíduos sólidos e controle da poluição
industrial.
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As áreas
críticas da Região Metropolitana receberam atenção
especial e recursos |
A iniciativa investiu cerca de US$ 116 milhões
na construção de três estações
de tratamento de esgoto na região metropolitana da capital
gaúcha (em Porto Alegre, Gravataí e Cachoeirinha).
Essas instalações beneficiam diretamente 542 mil pessoas,
possibilitando aumentar para 24% o esgoto tratado em Porto Alegre,
o que representa 18,5% na Região Metropolitana e 9% em toda
a região circunvizinha. No caso das ligações
domiciliares, a meta original de 25.839 ligações foi
superada.
Outra ação importante foi a elaboração
do Plano Diretor de Resíduos Sólidos, com indicação
de áreas críticas e soluções para a
Região Metropolitana de Porto Alegre, onde são recolhidas
diariamente mil toneladas de lixo. Além disso, foram aplicados
cerca de US$ 5,6 milhões na construção de aterros
sanitários, em Gravataí e na capital, duas unidades
de triagem de lixo, gerando centenas de empregos diretos e indiretos
e, como conseqüência, renda. A Unidade de Triagem e Compostagem,
na Lomba do Pinheiro, por exemplo, criou 180 postos de trabalho.
O local tem capacidade de transformar 10% do lixo de Porto Alegre
em composto orgânico para uso agrícola.
Com essas ações, Porto Alegre implantou, pela primeira
vez, um sistema de coleta seletiva de lixo, que resultou na cobertura
de 100% na coleta de lixo seco, o qual é encaminhado às
Unidades de Triagem de Resíduos Sólidos.
Para controlar a poluição industrial, através
da Fundação Estadual de Proteção Ambiental
Luís Henrique Roessler (Fepam), o Programa investiu na identificação,
cadastramento e classificação de 32,4 mil indústrias,
e preparou um plano de ações para eliminar as fontes
poluidoras e conceder licenças operacionais. O resultado
foi a redução de até 90% da carga orgânica
bruta gerada pelas indústrias mais poluidoras.
Uma rede de monitoramento ambiental permanente também foi
implantada na região, como a aquisição e instalação
de sete estações de controle da qualidade do ar. Foram
investidos US$ 4 milhões na operação de rede
de monitoramento da qualidade da água em 88 pontos e 14 poços
de águas subterrâneas. O procedimento tem demonstrado,
através dos relatórios de 2004 e 2005, uma melhora
na qualidade da água em pontos relacionados com a execução
de ações de obras de saneamento.
Nas áreas rurais do Pró-Guaíba, por meio da
Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência
Técnica e Extensão Rural (Emater), também foi
estendido o apoio aos pequenos agricultores, com financiamento para
intervenções em microbacias voltadas para práticas
agrícolas adequadas, agroecologia e educação
ambiental. Mais de 8.650 famílias, em 156 municípios,
foram beneficiadas por meio de um financiamento médio de
R$ 3,4 mil por família, com investimento total de US$ 25
milhões.
Região Hidrográfica
do Guaíba
Imagem de Satélite Landsat (1995)
Fonte: Secretaria Executiva do Pró-Guaíba (SIGPROGB). |
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Os recursos oferecidos ao agricultor para a compra
de equipamentos, práticas de conservação do
solo, aquisição de adubos e calcário são
financiados em até quatro anos, com dois anos de carência
e juros de 4% ao ano. O dinheiro pago pelo agricultor é destinado
ao Fundo Rotativo Permanente, o que permite a contratação
de novos investimentos.
Para a conservação da fauna, flora e cultura regionais,
o Pró-Guaíba investiu parte dos recursos na implementação
de parques estaduais, tais como o Parque Estadual de Itapuã
- uma das Unidades de Conservação mais ricas em biodiversidade
da Região Metropolitana. No local ainda podem ser encontradas
espécies raras como o bugio-ruivo, a lontra e o jacaré-de-papo-amarelo.
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Guaíba |
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Farol
do Parque Estadual de Itapuã, uma das unidades
de conservação mais ricas em biodiversidade
da Região Metropolitana |
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O Parque Estadual Delta
do Jacuí, atualmente
Área de Preservação Ambiental (APA), é
outro exemplo. Com uma área total de 21.907 hectares, é
formado por 28 ilhas, que funcionam como uma “esponja”,
regulando a vazão das águas na época das
cheias, assim como preservando sua qualidade. Entre elas encontra-se
a Ilha da Casa da Pólvora que
contém um complexo de prédios de 1852, os quais foram
restaurados para
uma exposição museológica com aquários,
terrários, plantas e animais da região do Delta do
Jacuí.
Como a Região Hidrográfica do Guaíba é
uma das mais ricas do mundo em fósseis triássicos,
o Pró-Guaíba, por meio da Fundação
Zoobotânica do Rio Grande do Sul, também investiu na
criação do parque paleontológico de Candelária,
com 172 hectares, onde foi encontrado o fóssil de uma espécie
de réptil, o Guaybassaurus candelariensis, com 250 milhões
de anos, proporcionando um importante pólo turístico
ao estado.
O Programa implantou um sistema de informação geográfica
que busca o fortalecimento institucional, a capacitação
de técnicos e a aplicação da tecnologia de
geoprocessamento.
O acervo do Pró-Guaíba é considerado o mais
completo sistema de informação geográfica (SIG)
do estado, possuindo bases cartográficas contínuas
em escala máxima 1:50.000. Para auxiliar na gestão
dos recursos naturais do estado, o sistema funciona como uma ferramenta
de apoio às decisões de diferentes esferas do governo.
Também foi desenvolvido o Pró-Siga, que colabora com
a gestão ambiental.
O programa integra o geoprocessamento aos dados originados do Diagnóstico
Ambiental e Socioeconômico da Região Hidrográfica
do Guaíba, da Consulta Pública, além das demandas
apontadas nos encontros regionais realizados nas nove bacias e do
processo de Participação Popular. O SIG auxilia também
no fornecimento de mapas, base para a habilitação
municipal de licenciamento das atividades de impacto local junto
ao Programa Siga-RS.
O Programa elaborou o Plano Diretor para a Região Hidrográfica
do Guaíba a partir dos fóruns de discussão
dos quais participaram técnicos do Governo do Estado, membros
do Conselho Deliberativo e representantes da população
na região, formando a espinha dorsal da política de
gestão de recursos naturais.
O Governo do Estado valeu-se do Plano Diretor da RHG como instrumento
de construção das políticas públicas
dirigidas ao uso sustentável dos recursos naturais. Isso
foi possível graças aos avanços no planejamento
e gestão e a um pacto social mais amplo que permitiu consolidar
o compromisso da sociedade.
O Pró-Guaíba investiu US$ 900 mil em ações
de educação ambiental, entendendo que a mobilização
e a compreensão da população sobre os problemas
ambientais proporcionam a busca de soluções conjuntas
com o poder público.
A “Romaria das Águas” é um exemplo de
ação que tem como objetivo sensibilizar as comunidades
para o uso racional da água, dotado de caráter simbólico
atribuído pelos diferentes grupos sociais.
No decorrer do desenvolvimento do Programa, o cenário político-ambiental
do estado evoluiu. A consolidação do Sistema de Recursos
Hídricos, por exemplo, através da criação
de mais sete comitês de bacias, completou a representação
na região hidrográfica. No início do Pró-Guaíba,
existiam apenas dois comitês. A partir daí, outras
bacias do estado instituíram, com seus comitês, a contratação
de estudo proponente de uma (ou mais) Agência de Água.
A própria criação da Secretaria de Estado de
Meio Ambiente (Sema), em 2002, resultou de propostas dos comitês.
Neste cenário, em agosto de 2005, a Sema lançou o
Módulo II, para dar continuidade ao programa através
de uma gestão integrada. O desafio é continuar o trabalho,
mesmo sem contar com financiamento externo. Na etapa atual estão
previstos apenas aportes locais, federais, de fundos específicos,
empréstimos a fundo perdido ou parcerias público-privadas.
As proposições e o acompanhamento do Módulo
II são coordenadas por um grupo de secretarias e órgãos
gestores, de diferentes instituições e parcerias,
que tratam de utilizar e ampliar o acervo de informações
e ações na região. Assim, o estado cumpre a
mais importante cláusula do contrato original do Programa
junto ao BID, na qual foi previsto um suporte do estado a partir
do qual será possível desenvolver estratégias
para a sustentabilidade das atividades na região.
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Em Porto
Alegre, a Romaria das Águas, manifestação
de carácter comunitário e religioso, pede proteção
ao ambiente |
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