| Histórias (breves) do saneamento
Séculos XV, XVI e XVII
Os primeiros viajantes que desembarcaram em terras da América
trouxeram consigo doenças contagiosas, desconhecidas e mortais.
A intensa colonização que resultou dos descobrimentos
reproduziu os péssimos hábitos de higiene então
vigentes na Europa. Contagiados de sífilis e outras enfermidades
repugnantes, os conquistadores, envergonhados de seu humilhante
estado, escondiam seus corpos sob roupas pesadas e fugiam da prática
índia dos banhos diários. Ao aportarem aqui, os discípulos
portugueses de Santo Antão, que nunca lavava os pés,
nem pensavam em saneamento nas cidades que fundaram.
Gilberto Freyre relata em “Casa grande e senzala”:
“Dos indígenas parece ter ficado no brasileiro rural
ou semi-rural o hábito de defecar longe de casa; em geral
no meio de touça de bananeiras perto do rio. E de manhã,
antes do banho. Um gole de cachaça com caju, e às
vezes um pelo-sinal para guardar o corpo precedem ordinariamente
esse banho higiênico. O caju, para limpar o sangue. Toda uma
liturgia ou ritual sanitário e profilático. Nas mulheres
a cargo de quem se achava toda a série de cuidados de higiene
doméstica entre os indígenas, com exceção
da lavagem das redes sujas, ainda era maior que os homens o gosto
pelo banho e asseio do corpo”.
Foram séculos terríveis e de grande mortandade entre
os índios.
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Século XVII
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Até meados do século XVIII, a Colônia
era esquecida na hora de receber os benefícios das ações
relacionadas à saúde e ao saneamento, visto que a
Portugal somente interessava garantir a exploração
colonial. A maior conquista das coletividades foi representada pelo
fornecimento de água à população por
meio de chafarizes, poços, cisternas e aquedutos. As pessoas
de posse tinham água levada em potes para suas casas, carregados
por escravos ou transportados em lombo de animais. A população
pobre, entretanto, pouca atenção recebia, tendo que
buscar água cada vez mais longe, à medida que as cidades
iam crescendo e seus mananciais sendo poluídos.
O primeiro sistema de abastecimento de água foi implantado
em 1723, na cidade do Rio de Janeiro, constituído de aqueduto
e chafariz localizado no atual Largo da Carioca. Em 1774, foi executado
o primeiro chafariz público da cidade de São Paulo
e, no ano de 1779, em Porto Alegre.
Século XIX
O Brasil urbano e imperial deleitava-se nos passeios em vitórias
e cabriolés, vestia pesadas sobrecasacas e cartolas pretas,
escrevia com penas de ganso e usava palmatórias e varas de
espinho para educar as crianças teimosas.
Porém, aos poucos, o Estado tratou de assumir os serviços
de saneamento como atribuição do poder público,
mas transferindo a gestão destes à iniciativa privada.
Na época, as medidas beneficiavam, principalmente, as empresas
de capital inglês, que detinham hegemonia no mercado brasileiro.
Em busca de lucro, as companhias privadas de saneamento priorizavam
os locais onde residiam as elites sociais.
Todavia, a maioria das empresas de saneamento teve vida curta. As
exceções foram a Companhia do Rio de Janeiro, que
atuou até 1947, e a Companhia de Santos, que sobreviveu até
1953. Entre as causas do fracasso das organizações
privadas no setor estavam a insatisfação da população
com a qualidade dos serviços prestados e sua abrangência
restrita.
A partir daí, o governo passou a dominar a gestão.
Ao despontar o século XX, era possível enumerar 57
serviços públicos de abastecimento de água
no Brasil. Entre esses, incluíam-se os serviços de
água das cidades de Porto Alegre (1866), Fortaleza (1867),
Rio de Janeiro (1876), São Paulo (1877), Belém e Campinas
(1881), Manaus (1884) e São Luís (1890).
Até então, apenas duas capitais brasileiras não
possuíam ainda sistema de abastecimento de água: Paraíba
do Norte (atual João Pessoa) e Florianópolis. Quanto
aos serviços de esgoto, existiam em 16 cidades. A cidade
do Rio de Janeiro foi a primeira capital brasileira, e a quinta
do mundo, a dispor de sistema de esgotos sanitários, o que
ocorreu em 1864. Recife, em 1873, e São Paulo, em 1875, passaram
a contar também com serviços de esgoto.
Acumulados em barris ou cubos, à noite, os dejetos eram transportados
pelos concessionários até os locais de despejo, praias
mais próximas ou trapiches construídos para tal fim.
Os cubos eram movidos até seu destino final pelos tigres,
assim denominados os escravos que suportavam a dura tarefa que lhes
era imposta.
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| Fauna e
flora gaúchas fixadas pelas tintas de Rudolf Herrmann
Wendroth |
A partir de 1890, houve uma crescente estadualização
dos serviços sanitários, face às dificuldades
técnicas e financeiras enfrentadas pelos municípios.
A intervenção dos governos estaduais, nas esferas
municipais, justificava-se pela necessidade de prevenir que localidades
com condições sanitárias precárias gerassem
problemas que pudessem atingir áreas urbanas já saneadas.
Século XX
A modernidade trouxe à luz a necessidade de aprender as velhas
lições deixadas pelas mortandades que se verificavam
a cada epidemia. Daí que em...
1917
Uma comissão nomeada pela Academia Nacional de Medicina (ANM)
apresentou ao Governo Federal um projeto de reorganização
dos serviços sanitários, tendo como principal proposta
a criação do Ministério de Saúde Pública,
com o objetivo de centralizar as ações de saúde
e saneamento com autonomia política, técnica e financeira.
A criação dessa estrutura ministerial deu-se somente
em 1937, 20 anos mais tarde, portanto.
1918
A população rural do
Brasil era de 20 milhões de habitantes. Destes, 16 milhões
estavam enfraquecidos pelos parasitas intestinais e três milhões
atacados pela malária. A população, em geral,
padecia de mais de uma enfermidade. O diagnóstico do Brasil
doente revelou a importância da atuação do Governo
Federal no saneamento e na promoção da saúde
pública, por meio de uma política para agregar as
unidades federativas em torno de um só objetivo. Era vital
destruir o elo da interdependência humana, representado pelo
agente causal da doença. Compreendeu-se que a doença,
causadora da improdutividade do homem rural, transitava livremente
pelo território brasileiro, alcançando as periferias
e centros urbanos.
Criada em 11 de fevereiro, a “Liga
Pró-Saneamento do Brasil” reuniu indivíduos,
instituições e órgãos públicos
em torno de um consenso geral acerca da sociabilidade das doenças.
O industrialismo parasitário e a política de urbanização
em ascensão foram duramente criticados pela Liga. A entidade
visualizava uma via potencial de disseminação de doenças
trazidas do sertão para a cidade, sob a forma de verminoses,
no crescimento desordenado dos centros urbanos. No sentido contrário,
o sertão era invadido pelas mazelas urbanas, como a sífilis,
o alcoolismo, a tuberculose e a imoralidade. A divulgação
dos trabalhos da Liga conseguiu reunir muitos interessados pela
causa. Entre eles, destacaram-se membros da Academia Nacional de
Medicina, catedráticos das Faculdades de Medicina do Rio
de Janeiro e da Bahia, cientistas do Instituto Oswaldo Cruz, antropólogos
do Museu Nacional e funcionários dos serviços públicos
federais. Aderiram, também, políticos e escritores,
entre estes Monteiro Lobato.
1919
Em dezembro, foi criado o Departamento Nacional de Saúde
Pública (DNSP), subordinado ao Ministério da Justiça
e Negócios Interiores (MJNI), inaugurando-se, assim, nova
fase no desenvolvimento de políticas sanitárias. Os
decretos que regulamentaram o DNSP estabeleceram um fundo especial
para o financiamento de obras de saneamento, constituído
por imposto sobre bebidas alcoólicas destiladas, venda de
selo sanitário, renda dos laboratórios e dos institutos
de pesquisa federais, saldos apurados nas verbas do MJNI e taxa
de 15% sobre produtos de jogos de azar.
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| Navegação
na Lagoa dos Patos em registro do militar e artista alemão
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1930
Na época, existiam no Brasil 344 cidades atendidas com serviços
de água e 150 com serviços de esgoto. A evolução
do número de cidades com essa infra-estrutura, no período
de 1890/1930, é mostrada no quadro abaixo.
1934-1949
O Governo Federal criou, em 10 de julho de 1934, através
do Decreto n° 24.645, o “Código das Águas”.
Substituído somente em 1997, pela Lei 9.433, ele precedeu
em 15 anos a abertura do primeiro curso de pós-graduação
em engenharia sanitária no Brasil, na Faculdade de Higiene
e Saúde Pública de São Paulo, em 1949. A iniciativa
contou com o apoio dos Estados Unidos, que exerceu forte influência
na matriz sanitária da engenharia nacional. A implantação
desenfreada de estações de tratamento de água
do tipo convencional, composta das unidades de coagulação,
floculação, sedimentação, filtração
rápida, desinfecção, fluoretação
e correção do pH, a partir dos anos 50, é um
exemplo dessa afirmativa.
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| Cena do
movimentado porto marítimo de Rio Grande em meados
do século XIX |
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| Vista da
cidade de Porto Alegre, em 1852 |
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| Rio, banhado
e seus personagens: pescadores, capivaras e jacarés |
1953
Editado o “Primeiro Plano Nacional de Financiamento
para Abastecimento de Água”, contemplando cidades com
até 50.000 habitantes. O plano priorizou inicialmente os
municípios que não possuíam ainda sistemas
de abastecimento. Depois, foram financiadas obras de ampliação
nos sistemas existentes que já estavam saturados. Os financiamentos
contraídos pelos municípios, entre 1953 e 1955, podiam
ser pagos em 15 anos, com juros de 8% ao ano, ou em 20 anos, com
juros de 9% ao ano.
Em 15 de outubro de 1953, a cidade de Baixo Guandu, situada às
margens do Rio Doce, no Estado do Espírito Santo, teve o
privilégio de ser a primeira cidade brasileira a ter flúor
aplicado na água tratada distribuída à população.
Em 1963, passados apenas 10 anos, um levantamento epidemiológico
da cárie dental constatou uma redução média
de 62,3% no índice de dentes cariados, perdidos e restaurados,
entre o grupo etário de 6 a 14 anos da população
da cidade de Baixo Guandu.
1959
Criada em 15 de dezembro de 1959,
através da Lei nº 3.692, a Superintendência de
Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), vinculada ao Ministério
do Interior, teve significativa atuação na área
de saneamento básico, inclusive como órgão
técnico do Banco Nacional da Habitação (BNH)
para a Região Nordeste.
Também neste ano, foi criado o Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID), o qual deu nova dinâmica ao financiamento dos serviços
de saneamento no Brasil. Da mesma forma, o BID contribuiu para a
mudança do modelo de referência para a gestão
do saneamento, já que era exigida total autonomia dos serviços
para contratação de empréstimos, além
da necessidade de realização de estudos de viabilidade
econômica para comprovar sua amortização via
tarifa.
1961
Em reunião promovida pelo Programa da Aliança
para o Progresso, em Punta del Este, no Uruguai, o Brasil foi classificado
em penúltimo e último lugar, respectivamente, em relação
aos índices de cobertura em água e esgoto, entre os
países da América Latina. Naquela oportunidade, foi
firmado documento de compromisso entre os países, estabelecendo
metas para o ano de 1971. O acordo tinha como objetivo final atender
70% da população urbana com serviços de água
e esgotos; e 50% da população rural com água
potável e esgoto ou disposição sanitária
de excreta.
Outro fato relevante no período, foi a criação,
em 15 de dezembro, do Departamento Municipal de Água e Esgotos
(DMAE), em Porto Alegre. O DMAE é, na atualidade, o maior
operador municipal de serviços de água e esgoto do
país. A capital gaúcha é beneficiária
de uma cobertura em água de 99,5%, e, em esgoto, de 48%.
O índice de esgoto coletado e tratado é de 27%, tendo
sido fixada a meta de 77% a ser alcançada até 2014.
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1964
O Governo Federal instala a Comissão
Coordenadora do Plano de Investimentos no Setor de Saneamento. Criado
em 21 de agosto, através da Lei nº 4.380, o BNH contando
basicamente com recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
(FGTS) a serem aplicados em habitação (60%), saneamento
(30%) e infra-estrutura (10%), foi o principal agente responsável
pelo avanço nas coberturas de água e esgoto no país,
esta última em menor escala.
1966
Por ato do governador do Rio Grande
do Sul, Ildo Meneghetti, dá-se a abertura da Companhia Riograndense
de Saneamento (CORSAN), hoje uma das quatro maiores empresas do
setor no país.
1972
Realizada na Suécia a 1ª Conferência
das Nações Unidas Sobre Meio Ambiente - Conferência
de Estocolmo. O encontro teve como objetivo conscientizar os países
sobre a importância de promover cuidados com a qualidade do
ar nos grandes centros urbanos, a limpeza dos rios, nas bacias hidrográficas
mais povoadas, e o combate à poluição marinha.
Na ocasião, a preservação dos recursos naturais
foi formalmente aceita pelos países participantes, e a reunião
culminou com a Declaração de Estocolmo Sobre o Meio
Ambiente. A partir daí, a questão ambiental tornou-se
uma preocupação global e passou a fazer parte das
negociações internacionais. Assim, foi criado, ainda
em 1972, o Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente (PNUMA), com sede em Nairobi, Quênia.
1978
Formado em 29 de março, através
da Portaria Interministerial n° 90, do Ministério de
Minas e Energia e do Ministério do Interior, o Comitê
Especial de Estudos Integrados de Bacias Hidrográficas (CEEIBH).
Em 11 de maio, através da Lei nº 6.258, foi institucionalizado
o sistema tarifário para os serviços de água
e esgoto. A regulamentação dessa lei, que dispõe
sobre as tarifas dos serviços públicos de saneamento
básico, deu-se em 16 de novembro de 1978, através
do Decreto nº 82.587.
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1983
Ao final do ano, por iniciativa do PNUMA, foi instalada,
na Assembléia Geral da ONU, a Comissão Mundial Sobre
Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), a qual produziu o relatório
“Nosso Futuro Comum”. As conclusões e propostas
contidas nesse documento foram discutidas mais tarde, na 2ª
Conferência das Nações Unidas Sobre Meio Ambiente
e Desenvolvimento, realizada em 1992, no Rio de Janeiro –
a ECO 92.
Por extensão, através de uma iniciativa do Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e
do BID, foi estabelecida, em 1989, a Comissão de Desenvolvimento
e Meio Ambiente da América Latina e do Caribe (CDMA/ALC).
Liderada pelo presidente do BID e pelo diretor do Programa Regional
para a América Latina e Caribe do PNUD, contava com treze
personalidades latino-americanas e 23 peritos.
A comissão produziu o documento Nossa Própria Agenda
que, segundo Emilia Rutkowski, “considera a pobreza como causa
e efeito da deterioração ambiental local”. O
vínculo entre pobreza e exploração revela outra
conexão: a relação entre a dívida externa
e os problemas ambientais regionais. Rutkowski afirma: “as
altas somas de juros da dívida externa determinaram uma transferência
líquida de capital, obrigando a super-exploração
dos recursos naturais, como meio de atender às necessidades
prementes de curto prazo e promover um acelerado aumento das exportações”.
Fonte:
Pesquisa no documento “Definição de
uma estrutura para o setor de prestação dos serviços
de abastecimento de água e esgotamento sanitário e
sua regulação no Estado do Rio Grande do Sul”,
elaborado pelos engenheiros Luiz Corrêa Noronha e Percy Antonio
Pinto Soares, em dezembro de 2005, com base em dados coletados
pelo Sindicato dos Trabalhadores de Água e Esgoto do Estado
de Santa Catarina (SITAESC).
As aquarelas que ilustram os textos são de autoria do militar
e artista alemão Rudolf Herrmann Wendroth, datadas de 1852,
e reproduzidas na edição especial ”O Rio
Grande do Sul em 1852", patrocinada pelo Governo do Estado,
na gestão de Amaral de Souza. Na ocasião, o acervo
foi disponibilizado por D. Pedro Gastão de Orleáns
e Bragança.
| Infografia de Cibele Grassi |
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