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Para dimensionar a disponibilidade da água na Terra,
é preciso compreender a diferença entre o bem
natural, descomprometido com qualquer uso, e o recurso hídrico,
ou seja, o bem econômico utilizado para fins específicos.
O setor de recursos hídricos tem como principais usuários
o saneamento básico, a agricultura e a indústria.
Nesse cenário, a bacia hidrográfica figura como
unidade padrão de planejamento e integração
de políticas e ações voltadas à
gestão racional e sestentável das águas. |
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Com boa gestão, não faltará
água |
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Luiz Corrêa
Noronha
Engenheiro civil sanitarista, assessor da presidência
da CORSAN, consultor de instituições nacionais
e internacionais, entre elas a Agência Nacional das Águas
(ANA) e o Banco Mundial (BIRD) |
O primeiro ser humano a ver a Terra do espaço, ou seja, o
primeiro a subir até uma altura que lhe permitiu vislumbrá-la
em sua plenitude, foi o astronauta russo Yuri Alexeiyevich Gagarin.
Quando falou com sua base na Terra, imortalizou a frase: “A
Terra é azul!”.
O astronauta assim se referiu, porque lhe foi possível observar
a enorme quantidade de água que cobre nosso planeta, principalmente
se comparada com a área dos continentes.
A água ocupa 70% da superfície terrestre, o que representa
mais de dois terços. Isso pode parecer muito, mas não
é.
• Existem aproximadamente 1 bilhão e 400 milhões
de quilômetros cúbicos de água. Ocorre que 97,5%
dela está nos oceanos, é salgada, e ainda não
dispomos de tecnologia economicamente viável para utilizá-la.
• Dos 2,5% restantes, que são de água doce,
76,7% correspondem às geleiras e aos lençóis
polares, e 22,3% constituem-se em águas subterrâneas,
a maior parte em profundidades inviáveis para exploração.
• Para as águas superficiais - rios, lagos, charcos,
pântanos etc. – resta, tão somente, 1% do total
da água doce, que corresponde a 0,025% da água disponível.
• Considerando que nem toda essa água é aproveitável,
e somando aquelas águas subterrâneas passíveis
de exploração, existem especialistas que se arriscam
a imaginar que apenas 0,001% dos recursos hídricos existentes
são, efetivamente, disponíveis.
O Brasil é privilegiado em termos de disponibilidade de
água, porém sua distribuição no tempo
e no espaço apresenta-se de forma desigual. Isso gera, por
exemplo, situações de muita abundância no Norte,
em contraste com situações próximas da escassez
absoluta no semi-árido nordestino.
Essa realidade exige que o poder público promova uma adequada
gestão dos recursos hídricos, com a finalidade de
compensar as diferenças. O grande desafio é garantir
água de boa qualidade e em quantidades suficientes para todos,
inclusive para as populações excluídas e gerações
futuras.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde
(OMS), para cada dólar investido em saneamento básico
economiza-se entre US$ 4 e US$ 5 nos gastos com saúde pública
corretiva. O saneamento básico é o
setor preventivo mais importante das ações de saúde
pública. Porém, os governos insistem em investir em
saúde pública corretiva em detrimento do saneamento
básico. Nesse sentido, preservar a qualidade das águas
é o mesmo que promover a saúde dos seres humanos.
Uma pessoa gasta entre 100 e 200 litros de água por dia para
suas necessidades de higiene e de alimentação. Quando
pensamos em uma sociedade, e imaginamos as necessidades per capita,
os números multiplicam-se, no mínimo, por dez mil
vezes, incluindo-se, no cálculo, a produção
de
alimentos e a geração de processos industriais. Disponibilidades
hídricas per capita/ano inferiores a 2.000 metros cúbicos
colocam os sistemas de gestão na condição de
alerta.
Definições
e políticas
A água é o elemento natural descomprometido com qualquer
uso, ou seja, é o gênero, enquanto que o recurso hídrico
é a água como bem econômico, passível
de utilização para fins específicos. Por isso
a disponibilidade é tão menor, se comparada à
existência ou ocorrência do bem natural água.
A partir daí, cabe ampliar o conceito básico e tentar
desfazer uma confusão presente nas discussões entre
leigos. É a diferença entre gestão de água,
que é um bem natural, e a prestação dos serviços
de saneamento básico, os quais incluem o abastecimento de
água.
Mas se a água é um bem natural, e como tal necessita
de gestão adequada, a partir de arcabouço legal específico,
a prestação de serviços de saneamento básico
apresenta-se com sua natureza pública, utilizando-se do bem
natural água e de muitos outros insumos, e tendo sua titularidade
sempre junto ao poder público.
A política de recursos hídricos brasileira, tanto
na Constituição como na lei que a instituiu, prevê
que a água é um bem natural de domínio público.
A Constituição define o saneamento básico como
serviço de natureza pública de interesse local. Assim,
o setor de recursos hídricos, que se ocupa do bem natural
água, tem inúmeros usuários, como o saneamento
básico, a agricultura, a indústria etc. O setor de
recursos hídricos também exerce inúmeras transversalidades
com outras áreas, como desenvolvimento urbano, resíduos
sólidos, conservação de solos, micro e macro
drenagem urbana e rural e meio ambiente. A prestação
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de serviços de saneamento básico é usuária
da gestão dos recursos hídricos, e assim deve ser
entendida e considerada.
Água não se regula, embora alguns usos possam ser
normatizados. Água precisa ter legislação e
gestão. Por sua vez, os serviços de saneamento básico,
usuários de água, tanto para abastecimento público
como para disposição de dejetos, configuram-se como
serviços públicos, os quais não necessitam
ser prestados apenas pelo setor público, mas sim controlados
pelo mesmo e regulados de forma adequada.
Poucas afirmativas são tão tendenciosas como aquela
que profere: “Querem privatizar a nossa água!”
Ora, a sociedade brasileira já decidiu, em sua Constituição
e na Lei de Recursos Hídricos, que a água é
um bem natural de domínio público. O que algumas pessoas
defendem, e não nos incluímos obrigatoriamente entre
elas, é que a prestação dos serviços
públicos de saneamento básico possa contar com maior
participação da iniciativa privada.
Negar essa possibilidade seria o mesmo que não admitir a
existência de escolas, universidades, hospitais, empresas
de segurança e vigilância, empresas de transporte coletivo
privados. A prestação dos serviços públicos
de educação básica, saúde, segurança
ou transporte coletivo urbano também são serviços
públicos, em muitos casos prestados de forma eficiente pela
iniciativa privada. Por que os serviços públicos de
saneamento básico deveriam ser diferentes? Seria o saneamento
básico um serviço mais público do que os demais?
O ciclo hidrológico
A disposição da água na Terra obedece ao que
se denomina de Ciclo Hidrológico, ou Ciclo das Águas,
caracterizado como um processo “fechado” que obedece
à regra básica de Lavoisier: “Na Natureza nada
se perde e nada se cria, tudo se transforma!”
O ciclo ocorre pelo movimento constante da água e de sua
passagem por diversos estados físicos (sólido, líquido
e gasoso), sempre variando de acordo com a maior ou menor quantidade
de energia (no caso, o calor) que a Terra recebe do sol. De forma
simplificada, podemos dizer que toda a água dos oceanos,
rios, lagos, solos, vegetação e animais, ou seja,
toda a água existente na atmos- fera, evapora. O vapor de
água, que se move na atmosfera, pode concentrar-se na forma
de nuvens. A água que está nas nuvens pode se precipitar
retornando aos oceanos, rios e solo ou, ainda, permanecer na atmosfera.
Assim, depois da chuva, parte da água que chega à
superfície da Terra evapora-se novamente. O restante poderá
seguir inúmeros caminhos e dimensões, tais como:
• infiltração no solo, ficando disponível
para as plantas ou transferindo-se para os lençóis
freáticos ou aqüíferos;
• escoamento superficial ou escorrimento pela superfície,
formando sulcos ou canais de drenagem até atingir as águas
superficiais, ou seja, rios, lagos, córregos e, por fim,
oceanos;
• formação de geleiras e camadas de gelo nas
partes mais frias do planeta;
• absorção pelas plantas e consumo por seres
humanos e animais. Parte dessa água retorna à atmosfera,
através da transpiração das folhas e dos poros
dos animais.
Bacia hidrográfica,
conceito fundamental
A bacia hidrográfica é uma parte de solo, ou de superfície
terrestre, limitada pelos pontos mais altos do relevo. Nesta área
geográfica, as águas provenientes das chuvas escorrem
para os pontos mais baixos do relevo, formando um curso de água
- rio, lago ou banhado. É possível afirmar que uma
bacia hidrográfica assemelha-se ao terraço descoberto
de uma cobertura, cujo piso recolhe toda a água que cai naquela
área e a encaminha para as partes mais baixas, as quais,
no exemplo, seriam um único ralo. No caso de existirem dois
ralos e dois fluxos de escorrimento, teríamos duas bacias
hidrográficas.
Nas bacias hidrográficas sempre existem entradas de água
e saídas para as águas. A precipitação
(chuva) e os fluxos de água subterrânea são
as entradas. As saídas ocorrem pela evaporação,
pela transpiração das plantas e dos animais, pelo
consumo e escoamento das águas superficiais e subterrâneas.
A bacia hidrográfica configura-se como a área geográfica
mais adequada e apropriada para o desenho de políticas públicas
dirigidas ao setor de saneamento, de recursos hídricos e,
principalmente, de meio ambiente. Toda a base da gestão de
águas no Brasil está vinculada ao conceito e ao entendimento
da bacia hidrográfica. A adoção da bacia hidrográfica
como delimitação espacial ou territorial para a gestão
das águas resulta no respeito à divisão espacial
que a própria natureza construiu.
Independentemente do uso dado às águas de determinada
região ou bairro, a bacia hidrográfica foi adotada
como delimitação territorial para a gestão
das águas. Tornou-se, então, unidade padrão
de planejamento e passou a integrar políticas para a implementação
de ações conjuntas voltadas ao uso, conservação
e recuperação das águas. Em geral, essa divisão
territorial não corresponde às divisões políticas
e administrativas de estados e municípios. Neste caso, a
gestão por bacia pode proporcionar a substituição
da jurássica lógica setorial por outra mais moderna
e integrada, de caráter regional.
Necessidades e usos da água
O consumo total de água, hoje, é de 200 quilômetros
cúbicos/ano mas poderá chegar a 360 quilômetros
cúbicos/ano, em 2025, mantida a tendência de crescimento
populacional mundial. Diante disso, sem uma adequada gestão,
a sustentabilidade do uso dos recursos hídricos mundiais
estará ameaçada. Para evitar o colapso do acesso a
esse bem limitado, medidas voltadas ao uso racional devem ser adotadas
pelos setores usuários.
Classificando os usuários em três setores básicos
- agricultura, indústria e saneamento básico ou uso
humano -, a média mundial de utilização de
água encontra-se em:
- agricultura (irrigação)=70%;
- indústria=23%
- uso doméstico=7%
Os números variam de continente para continente, sendo que
a agricultura consome 90% na África e 51% nas Américas
do Norte e Central. A indústria, por sua vez, consome 4%
na África e 41% nas Américas do Norte e Central, sobrando,
para o uso humano ou saneamento básico 6% na África
e 19% na Europa. Na América do Sul, o setor agrícola
consome 59%, o industrial 26% e o uso humano 15%. No Brasil, a agricultura
consome 61%, a indústria 18% e o saneamento básico
21%. No Rio Grande do Sul, por exemplo, esses usos alcançam
83,5% no setor agrícola, 10,3% no setor industrial e 6,2%
no saneamento básico.
Os problemas mundiais relativos aos recursos hídricos estão
vinculados tanto a sua escassez como à má distribuição
da oferta de água na superfície terrestre. Estima-se
que a demanda por água deverá dobrar nos próximos
25 anos. Metade da população do globo, cerca de 4
bilhões de pessoas, poderá enfrentar sérios
problemas de escassez de recursos hídricos até 2025.
Até 2050, serão sete bilhões de seres humanos
a enfrentar dificuldades, segundo projeções das Nações
Unidas, no “Informe Mundial sobre o Desenvolvimento de Recursos
Hídricos”.
Os cálculos de escassez e abundância de água
são elaborados a partir de um indicador que mostra a disponibilidade
per capita anual de água, isto é, a quantidade realmente
disponível para cada habitante ao longo de um ano.
Assim, de acordo com cálculos do Banco Mundial, esse indicador
tem a seguinte classificação:
• disponibilidade inferior a 500 metros cúbicos por
habitante por ano significa uma situação extrema,
com riscos e ameaças à sobrevivência humana;
• disponibilidade entre 500 e 1.000 metros cúbicos
de água por habitante por ano revela uma situação
de escassez, com ameaça à saúde, interrupção
de desenvolvimento (social e econômico) e riscos à
prosperidade humana;
• disponibilidade entre 1.000 e 1.500 metros cúbicos
de água por habitante por ano representa uma situação
de “estresse hídrico”, com faltas localizadas
de água e tendência à escassez;
• disponibilidade entre 1.500 e 2.000 metros cúbicos
de água por ano por habitante significa uma situação
ou estado de alerta;
• disponibilidades superiores a 2.000 metros cúbicos
não são preocupantes.
O Banco Mundial também realizou um estudo em 160 países
para avaliar a oferta de água em cada um deles, chegando
às seguintes conclusões:
• na América do Norte, o Canadá tem disponibilidade
superior a 20.000 metros cúbicos por habitante por ano (m3hab)
e os Estados Unidos entre 5.000 e 20.000 m3hab;
• nas Américas do Sul e Central, dos 26 países
estudados, 13 têm disponibilidade superior aos 20.000 m3hab,
entre eles o Brasil; cinco ficam entre 5.000 e 20.000 m3hab, e outros
cinco com variação entre 2.000 e 5.000 m3hab - números
bastante tranqüilizadores; dois países colocam-se entre
1.000 e 2.000 m3hab, em situações de estresse e/ou
de alerta, e um país encontra-se em estado de escassez, com
disponibilidade inferior a 1.000 m3hab;
• na África, dos 53 países avaliados, 11 estão
no patamar acima de 20.000 m3hab; 10 estão entre 5.000 e
20.000 m3hab; 13 com disponibilidade entre 2.000 e 5.000 m3hab;
10 em situação de alerta ou de estresse, variando
de 1.000 a 2.000 m3hab e, finalmente, nove enfrentam situação
de escassez, com índice inferior a 1.000 m3hab;
• no Oriente Médio, nove países foram pesquisados,
resultando que sete vivem em situação de escassez,
com disponibilidades inferiores a 1.000 m3hab; dois em estado de
estresse hídrico ou de alerta, variando de 1.000 a 2.000
m3hab e dois entre 2.000 e 5.000 m3hab;
• na Europa, 31 países foram observados, resultando
que quatro atingem índices superiores a 20.000 m3hab; 13
situam-se entre 5.000 e 20.000 m3hab; nove estão entre 2.000
e 5.000 m3hab e cinco vivem em situação de alerta
ou de estresse hídrico, entre 1.000 e 2.000 m3hab;
• finalmente, na Ásia, dos 39 países verificados,
nove localizam-se acima de 20.000 m3hab; 17 entre 5.000 e 20.000
m3hab; nove entre 2.000 e 5.000 m3hab; três em estado de alerta
ou de estresse hídrico e um atravessa situação
de absoluta escassez, com nível inferior a 1.000 m3hab;
• na conclusão, dos 160 países estudados, 40
(25% da amostra) apresentam disponibilidades inferiores a 2.000
m3hab, o que significa situações de alerta, de estresse
hídrico ou de escassez absoluta.
Alguns indicadores e números internacionais falam por si
próprios na problemática da água e dos serviços
de saneamento básico, a saber:
• cerca de um bilhão de pessoas no mundo ainda não
têm acesso à água potável;
• 2,4 bilhões de pessoas ainda vivem sem saneamento
básico;
• 3,5 milhões de crianças morrem, a cada ano,
em decorrência de doenças de veiculação
hídrica; destas 20% na América Latina;
• 50% dos banhados do planeta correm perigo de desaparecer;
• 20% das espécies de peixes de água doce estão
extintas e/ou ameaçadas.
O caso brasileiro
O Brasil apresenta o maior fluxo interno de recursos hídricos
do mundo, com 177.900 metros cúbicos por segundo. O país
possui 12% do total da água doce disponível, apesar
da má distribuição desses recursos em seu território.
Cabe, aqui, uma análise comparativa entre as cinco regiões
brasileiras em relação às populações,
superfícies e ofertas de recursos hídricos:
• a Região Norte detém 7% da população,
45% da superfície e 68% dos recursos hídricos disponíveis;
• a Região Centro-oeste tem 6% da população,
19% da superfície e 16% dos recursos hídricos;
• a Região Sul abriga 15% da população,
7% da superfície e 7% dos recursos hídricos;
• a Região Sudeste possui 43% da população,
11% da superfície e 6% dos recursos hídricos;
• finalmente, a Região Nordeste apresenta 29% da população,
18% da superfície e tão somente 3% dos recursos hídricos.
Assim, no Brasil, os problemas principais são a escassez
no Nordeste e a poluição das águas no Sul e
no Sudeste. As dificuldades com a disponibilidade de água
estão localizadas no semi-árido nordestino, com pontos
de extrema carência de água no sertão baiano,
paraibano e pernambucano, devido à baixa precipitação,
e nas regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio
de Janeiro, pelo excesso populacional lá existente.
Usos múltiplos, setores usuários
e transversais
A política nacional de gestão de recursos hídricos
está embasada no que se define como “usos múltiplos
do bem natural água”. Apesar da Lei Brasileira de Recursos
Hídricos, Lei nº 9.433, de 1997, estabelecer que, no
caso de escassez, os usos prioritários devem ser o abastecimento
humano e a dessedentação dos animais, a boa gestão
precisa prever a plena utilização dos mesmos. Na sua
mais ampla concepção, os usos múltiplos devem
considerar os setores usuários de água e os setores
transversalizados.
Os usos podem ser classificados como consuntivos e não consuntivos,
ou seja, aqueles que consomem água e os que não consomem
água, mas a utilizam para os seus fins. Alguns exemplos:
• abastecimento humano – uso consuntivo (que consome);
• abastecimento industrial – uso consuntivo (que consome);
 |
| A agricultura
alimenta a população mas é a maior consumidora
de água |
• navegação – uso não consuntivo
(não consome);
• hidro-eletricidade – uso não consuntivo (não
consome);
• controle de cheias – uso não consuntivo (não
consome);
• disposição de dejetos – uso não
consuntivo (não consome, mas polui);
• pesca e aqüicultura – uso consuntivo (consome);
• recreação e turismo – uso não
consuntivo (não consome);
• irrigação – uso consuntivo (consome,
e muito).
O gestor das águas, sempre o poder público, pelo menos
no Brasil, deve levar em conta todos os usos previstos para os recursos
hídricos disponíveis e, com a ajuda dos instrumentos
de gestão adequados, garantir que cada um desses setores
usuários possa utilizar o bem natural, com eficiência,
dentro de suas necessidades e especificidades. Isso é gestão.
Assim, os chamados setores usuários de água, ou de
recursos hídricos, são os seguintes:
• abastecimento de água: a água é a matéria
prima do processamento industrial de abastecimento de água
potável. A água bruta (ou seja, o recurso hídrico),
na maioria das vezes carece de um processo de tratamento para, então,
ser distribuída às populações;
• abastecimento industrial: idem ao anterior, somente dirigido
à indústria. Nem sempre a água precisa ser
tratada, mas a utilização do recurso é bastante
importante;
• agricultura: maior usuário de água, devido,
principalmente, às atividades de irrigação.
Essa água também não necessita receber tratamento
para purificação ou potabilização;
• navegação: sem as águas superficiais,
o setor não existiria;
• tratamento de dejetos públicos e/ou industriais:
estes setores utilizam os recursos hídricos disponíveis
como depositários de seus dejetos, influindo bastante em
sua qualidade;
• recreação e turismo: água para o lazer,
esportes náuticos, recreação de contato primário
(balneabilidade) etc;
• elétrico: a utilização da energia hidráulica
para transformação em energia elétrica configura-se
como uma das mais importantes fontes energéticas no país.
Por muito tempo, a gestão das águas foi encargo do
setor elétrico, ou seja, seu maior usuário de uso
não consuntivo;
• pesca e aqüicultura: a pesca ocorre a partir da existência
de recursos hídricos marítimos, fluviais e lacustres,
os quais abrigam populações piscícolas importantes.
Já a aqüicultura necessita razoáveis quantidades
iniciais de água, a partir das quais se criam peixes e outras
espécies aquáticas
 |
| O setor
da pesca depende da sestentabilidade para sobreviver |
Além dos setores usuários, temos aqueles denominados
de transversais ao setor de recursos hídricos, que influem
de alguma forma sobre sua qualidade sem, necessariamente, os utilizarem.
São eles:
• meio ambiente: as condições ambientais são
absolutamente vinculadas aos recursos hídricos, principalmente
em termos de qualidade das águas, proteção
dos mananciais e estabelecimento da cota ambiental. Convencionou-se
chamar de cota ambiental a quantidade mínima de água
necessária ao atendimento das necessidades ambientais básicas
na Natureza;
• desenvolvimento urbano: tem enorme influência sobre
as condições de utilização dos recursos
hídricos, pois a ausência de planejamento urbano, em
geral, provoca poluição dos cursos de água,
sub-habitações em áreas de cheias, pressão
elevada sobre os gastos de recursos hídricos etc.;
• resíduos sólidos: quando o lixo não
é coletado em sua totalidade, seu destino final é
sempre um curso d’água. De forma direta ou indireta,
os resíduos sólidos chegam aos cursos d´água,
através do sistema de esgotamento pluvial;
• rural: além de se constituir no maior usuário
mundial dos recursos hídricos disponíveis, apresenta
importantes transversalidades, tais como: (i) no controle dos usos
de agroquímicos ou agrotóxicos, onde está a
diferença entre poluir ou não um corpo de água
do meio rural; (ii) a destruição das matas ciliares,
que exercem significativa influência tanto na qualidade como
na quantidade da água. A inexistência de matas ciliares
gera o assoreamento dos cursos de água, pelo carreamento
de material sólido oriundo de solos erodidos a montante;
(iii) a conservação de solos, que evita o processo
de erosão e o conseqüente assoreamento, o qual diminui
vazões, interrompe fluxos, aumenta velocidades, incrementa
as cheias e as enchentes etc.;
• drenagem: tanto a macro como a micro drenagem urbana, assim
como a drenagem rural, têm enorme influência sobre a
qualidade e a quantidade das águas. Se temos drenagens insuficientes,
em zonas de boa infiltração, o resultado será
uma maior quantidade de água subterrânea em relação
às águas superficiais. A carência de sistemas
adequados de drenagem resulta na tendência de gerar enchentes.
A água e a pobreza
Existe uma estreita relação entre a disponibilidade
de água e os índices de pobreza humanos. Ou, pelo
menos, parece existir! Estão disponíveis inúmeros
estudos que advogam a relação completa e absoluta
entre a água e a pobreza, inclusive alguns que colocam a
disponibilidade de água como o principal fator de desenvolvimento
econômico e social. Um olhar sem muita profundidade pode revelar
que os índices de pobreza, na África e no Oriente
Médio, são significativos nos lugares onde há
menos água. No Brasil, quando comparamos a disponibilidade
de água de cada região e seu índice de desenvolvimento
humano (IDH), apontamos diretamente para o Nordeste, e a conexão
pobreza x escassez de água fica ainda mais fortalecida.
Por um raciocínio linear, está feita a relação...
A pobreza está diretamente ligada à escassez ou à
falta de água! A água é o principal ativo social!
Sem água não existe desenvolvimento!
Entretanto, se a escassez de água está diretamente
vinculada à pobreza, a abundância de água deveria
manter algum tipo de relação com bons índices
de qualidade de vida. Porém, quando analisamos o Brasil,
vemos que a Região Norte, que apresenta a maior disponibilidade
de água do país, está bastante longe de alcançar
índices sociais razoáveis. No caso do México,
é sintomático que os lugares de maior disponibilidade
de água, como a Península do Yucatã, revelem
os maiores índices de pobreza. Nos desertos do norte, como
nos estados de Sonora e Sinaloa, onde a precipitação
é muito inferior àquela do semi-árido nordestino,
é exatamente onde se encontram os melhores indicadores de
renda e qualidade de vida. Por acaso, esses estados secos encontram-se
exatamente na fronteira com os Estados Unidos da América.
Aqui mesmo, no Rio Grande do Sul, não é o mapa dos
recursos hídricos que está diretamente vinculado aos
indicadores sociais. Mesmo no interior, onde os recursos naturais
são absolutamente determinantes, o mapa da qualidade dos
solos gaúchos tem muito mais coerência e vinculação
com o mapa da pobreza e da qualidade de vida.
Enfim, é um assunto para sociólogos, economistas e
outros estudiosos. A idéia, aqui, é admitir a dúvida
e não permitir a fácil e natural explicação
para os problemas sociais que assolam nosso país e o mundo.
Os maiores usuários de água
A média mundial indica que o setor agrícola, em decorrência
da irrigação, consome 70% dos recursos hídricos
disponíveis. Na média brasileira, esse número
cai para pouco mais de 60% e, no Rio Grande do Sul, cresce para
pouco mais de 80%. Isso não ocorre por acaso. A água,
além de matar a sede dos
 |
| No Rio Grande
do Sul, a qualidade do solo é fator determinante da
riqueza,
mais do que a água |
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| Nem sempre
as regiões mais pobres são as mais carentes
de recursos hídricos |
animais, tem uma importância capital nos processos de produção
de alimentos. Alguns números e informações
gerais sobre a agricultura e os gastos de água ilustram essa
afirmação:
• a área irrigada global equivale a 260 milhões
de hectares, o que significa 17% da área cultivada. Essa
mesma área contribui com 40% da produção total
de alimentos. Apesar de a agricultura ser hoje a maior consumidora
de água, o crescimento do consumo em outros setores, nos
últimos anos, vem sendo 15 vezes maior. A competição
de usos mais nobres para o mesmo produto forçará os
irrigantes a buscarem tecnologias mais eficientes e menos gastadoras;
• para cultivar um quilo de soja, são necessários
2.000 litros de água;
• para produzir um quilo de batata, são necessários
500 litros de água;
• para produzir um quilo de alfafa, sorgo ou trigo, são
necessários 900 litros de água;
• para produzir um quilo de milho, são necessários
1.100 litros de água;
• para produzir um quilo de arroz, são necessários
1.900 litros de água;
• para criar um boi, ao longo de sua existência, em
manutenção, pastagem e rações, são
necessários 100.000 litros de água;
• a área irrigada, no Brasil, é de aproximadamente
três milhões de hectares, correspondendo a 5% da área
cultivada do país, responsáveis por 16% da produção;
• cada hectare irrigado corresponde a sete hectares de agricultura
de sequeiro;
• os sistemas de irrigação dominantes no Brasil
são o de inundação (arroz no Rio Grande do
Sul), aspersão convencional com pivô central (cereais)
e a localizada (fruticultura).
Em geral, a medida da eficiência da irrigação
é calculada pelo percentual da água que de fato chega
às culturas relacionado ao gasto total de água. No
Brasil, os sistemas de aspersão convencional, que ocupam
uma área aproximada de 503.000 hectares, apresentam uma eficiência
média de 60%. O pivô central, que ocupa uma área
aproximada de 550.000 hectares, tem eficiência um pouco superior,
alcançando os 70%. Os sistemas de irrigação
localizada, utilizados na fruticultura, os quais cobrem 182.000
hectares, mostram eficiência da ordem de 90%, enquanto os
processos de inundação, que englobam 1.768.000 hectares,
têm eficiência bastante baixa, da ordem dos 50%.
Enquanto a eficiência média brasileira em termos de
água utilizada na irrigação gira em torno dos
50%, no resto do mundo a média consegue ser ainda menor,
oscilando em torno dos 45%. Os outros 55% são desperdiçados
da seguinte forma:
• 15% são perdas no sistema de condução,
que ocorrem desde a tomada de água até o sistema de
distribuição;
• outros 15% são perdidos na distribuição
de água, nos sistemas que levam a água para as propriedades
individuais;
• finalmente, 25% são perdidos na propriedade que está
sendo irrigada.
A busca da racionalização do uso da água na
agricultura, e a conseqüente redução dos conflitos
com outros setores, pode se dar por medidas da seguinte natureza:
(i) agronômica; (ii) técnica; (iii) manejo adequado
da atividade de irrigação; (iv) institucional ou (v)
reuso das águas.
Experiências e conclusões
Instituições e profissionais especializados
na matéria água vêm, ao longo dos últimos
anos, reunindo observações e recomendações
que nos permitem identificar premissas e desafios a serem considerados
no processo de gestão de recursos hídricos.
Nos últimos sete anos, por força da atividade profissional,
avaliamos institucionalmente inúmeros sistemas de gestão
de recursos hídricos, bem como uma razoável quantidade
de organismos gestores, em diversos estados brasileiros, no Uruguai,
Paraguai, México e em várias províncias argentinas.
Somou-se a essa experiência a participação em
dois eventos – o Fórum de Secretários de Estado
de Recursos Hídricos, em Campina Grande, em maio de 2003,
e a Oficina de Trabalho de Gestão de Recursos Hídricos,
que reuniu técnicos da Agência Nacional das Águas
(ANA) e consultores do Banco Mundial, em Brasília, em julho
de 2004. Neles, apresentamos nossas avaliações e conclusões,
que foram então referendadas, possibilitando alcançar
a clareza quanto às principais demandas para a gestão
de recursos hídricos no Brasil.
Em síntese, os principais consensos são:
1 - é necessário defender o princípio da gestão
integrada, descentralizada, cooperada e participativa, tanto entre
os três níveis de governo, como entre o setor público
e o privado, apoiando a consideração do ciclo hidrológico
das águas na gestão com a finalidade de obter maior
eficiência no uso dos recursos hídricos e no processo
de desenvolvimento sustentável;
2 - o melhor e mais efetivo instrumento de gestão de água
ainda é um bom, eficiente, forte, estruturado, independente
e auto-sustentável organismo gestor e, para tanto, é
preciso apoiar a instalação de organismos gestores
específicos, com essas características, em cada estado;
3 - deve-se apoiar a criação e a melhoria dos instrumentos
de gestão, principalmente da outorga, dos planos estaduais
de recursos hídricos, do enquadramento dos cursos de água,
dos sistemas de informação e das redes de monitoramento,
sendo esses últimos articulados e compatibilizados com os
sistemas e redes de monitoramento operados pela ANA, em âmbito
federal;
4 - serão incentivados e apoiados projetos-piloto demonstrativos
de gestão e infra-estrutura, programa de capacitação
de recursos humanos para a gestão, programas de educação,
conscientização e informação pública;
5 - a gestão dos recursos hídricos requer ações
diferenciadas quanto ao abastecimento de água para populações
difusas e grandes aglomerados urbanos, devendo ser rejeitada a segregação
entre a gestão da qualidade e da quantidade da água;
6 - o gerenciamento sustentável da infra-estrutura hídrica,
como é o caso das adutoras, configura-se também como
instrumento de gestão;
7 - o Governo Federal deveria formular um programa de gestão
com componentes federal e estadual, que tenha o mesmo tratamento
diferenciado dos programas de ajuste fiscal e de gestão até
hoje operados no país, como é o caso do PNAFE, PNAFM
e PNAGE, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, e dos projetos
de reforma do Estado, do Banco Mundial;
8 - deve ser criado, ao nível da ANA, um sistema de avaliação
da situação da gestão de recursos hídricos
no país, com indicadores adequados, e que permita a formação
de um ranking dos estados em relação à gestão;
9 - é preciso avançar nas questões de desenvolvimento
institucional, completando as medidas necessárias que possibilitem
a gestão sustentável dos recursos hídricos
e financeiros, e multipliquem as formas de parceria dos governos
com a sociedade civil e usuários, de modo a incentivar a
participação comunitária e a solidariedade
social.
Em relação às questões gerais envolvendo
política, arcabouço legal e temas macro-institucionais,
concluiu-se que:
• devido à forte influência que o Pró-água
do Semi-árido vem exercendo nas melhorias e avanços
dos sistemas de gestão de recursos hídricos, nos últimos
anos, no Nordeste e em Minas Gerais, entende-se que deve ser garantida
a continuidade de programas de apoio à gestão e ao
planejamento de infra-estrutura, ou a criação de novos
programas com as mesmas características;
• é impossível manter modelos únicos
de gestão, devendo ser promovida a formatação
de modelos gerenciais adequados às peculiaridades regionais;
• as características do arcabouço legal e institucional
devem ser adaptadas às especificidades de cada estado e região;
• em decorrência da intrínseca relação
água/solo/vegetação, bem como das indefinições
existentes junto aos demais setores transversais, sugere-se a inclusão
e melhor definição das questões da transversalidade
com os organismos afins, explicitando-as no arcabouço legal
e institucional do setor;
• a promoção de ações de fortalecimento
institucional dos conselhos estaduais é prioritária
para a boa gestão dos recursos hídricos;
• é necessário aprofundar discussões
sobre dominialidade e procedimentos integrados de gestão
entre a União e os estados, assim como entre os próprios
estados.
Em relação à implementação da
gestão e aos organismos gerenciadores, defende-se que:
• o melhor modelo implementador da gestão dos recursos
hídricos deve incluir um organismo gestor de mais alto nível
(secretaria de estado) e um organismo de gerenciamento, ou de implementação,
específico e especializado no setor;
• os estados deveriam articular-se com a ANA para realizar
trabalho voltado a estudos institucionais para cada unidade federativa,
principalmente naquelas em que a gestão estiver menos desenvolvida,
com o objetivo de fornecer subsídios para a formatação
do melhor modelo para cada caso específico;
• as atividades de obras hídricas e de gestão
ambiental não são compatíveis com as de gestão
dos recursos hídricos, dentro de uma mesma organização;
• o órgão implementador da gestão dos
recursos hídricos precisa ser um organismo da administração
indireta, com a maior autonomia possível, para tratar especificamente
do tema, contando com quadro próprio, bem remunerado, com
poucos níveis hierárquicos, da forma mais auto-suficiente
possível;
• o organismo gestor das políticas públicas,
ou seja, a secretaria de estado responsável, necessita ser,
igualmente, bem-estruturada, ter quadro próprio etc.;
• é recomendável o aprofundamento das discussões
sobre o papel da agência de bacia/agência de água
no arcabouço jurídico dos estados em função
da complexidade do tema em questão.
Quanto aos instrumentos de gestão de recursos hídricos,
sua classificação e implementação, deliberou-se
que:
• deve ser encaminhada proposta para identificar e classificar
os instrumentos de gestão em quatro categorias: (i) instrumentos
legais, institucionais e de articulação com a sociedade;
(ii) instrumentos de planejamento; (iii) instrumentos de informação
e (iv) instrumentos de operação;
• quando existem um ou dois bons e bem-estruturados instrumentos,
em cada um dos grupos citados no item anterior, já é
possível ter uma gestão de recursos hídricos;
• a participação da sociedade civil organizada
e dos usuários de água é absolutamente imprescindível
para a boa gestão, porém, a experiência tem
mostrado que, com bons instrumentos técnicos de gestão,
garante-se resultado razoável, enquanto que, com bons instrumentos
de participação e sem instrumentos de gestão
técnica, não é possível promover qualquer
tipo de gestão;
• é crucial e necessário aprofundar estudos
e agilizar a implementação de instrumentos que permitam
a garantia de um fluxo financeiro contínuo para o setor.
Os fatos nos levam a reiterar a assertiva inicial segundo a qual,
apesar da quantidade de água disponível no planeta
ser limitada, com uma adequada gestão dos recursos hídricos
disponíveis, não faltará água para as
gerações futuras.
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| É
necessário entender, hoje, que a correta gestão
dos recursos hídricos disponíveis poderá
garantir a oferta de água para as gerações
do futuro |
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