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Entrevista - As
vozes destoantes do samba oficial.
Prof. Dr. Adalberto Paranhos
Professor da Universidade Federal de Uberlândia,
Pós-graduação em Ciência Política
pela Unicamp,
Pós-graduação em História Social
pela PUCSP.
LP -- Historicamente
falando, pode-se dizer que o culto a Getúlio Vargas provém,
acima de tudo, dos setores populares?
AP – Getúlio Vargas é uma esfinge
a desafiar permanentemente o esforço de decifração
dos que ousam aproximar-se dela. Aliás, o gesto trágico
de seu suicídio forneceu mais munição para
alimentar o mito que se construiu em torno desse líder
político. Ainda hoje ressoam muitas palavras que cobrem
de elogios a figura de Vargas. E, não há como
negar, ao longo do tempo ele foi cultuado principalmente por
gente ligada às classes populares.
LP – Isso se evidenciaria inclusive
na produção artística de origem popular?
AP – Sim. Limito-me aqui a dois exemplos
provenientes da literatura de cordel e da música popular
brasileira. O poeta popular nordestino Francisco Sales Areda,
em meados dos anos 40, promovia como que a canonização
de Getúlio num de seus folhetos, no qual ele afirmava,
a propósito da campanha eleitoral de 1945: “E o
povo em peso gritava/ viva a Deus nas alturas/ na terra Getúlio
Vargas/ a mais bela das figuras”. Cuíca de Santo
Amaro, outro poeta escolado na literatura popular em versos,
também não continha seus arroubos. O título
de uma de suas poesias é por si só suficientemente
eloqüente: “Deus no céu e Getúlio na
terra”.
Na área da música popular industrializada podem
ser recolhidos inúmeros exemplos de louvação
a Vargas, particularmente à época do “Estado
Novo”, marcada pela orquestração do coro
de culto ao Estado e ao ditador. “O sorriso do presidente”
foi cantado em versos, ele que, em outra composição,
era apontado como uma das “Glórias do Brasil: “Surgiu
Getúlio Vargas/ o grande chefe brasileiro/ que entre
os teus filhos/ como um herói foi o primeiro”.
Se alguém quisesse saber “Quem é o tal”
durante a ditadura estado-novista, uma marchinha dava a senha:
ele tinha nas suas iniciais “o G que representa a glória”
e o V que significa vitória. E por aí ia (ou vai)
o culto que se rendia (e se rende) a Getúlio Vargas.
LP -- Qual seria a razão fundamental
que nos possibilitaria entender por que Vargas ocupa um lugar
especial na memória popular?
AP – As origens disso se situam, em
larga medida, na legislação trabalhista e social
implementada em seu governo, ao lado da mobilização
de recursos simbólicos para estabelecer elos, do ponto
de vista ideológico, entre o Estado e as classes trabalhadoras.
Seja como for, o atendimento, mesmo que parcial, de algumas
demandas históricas mais imediatas dos trabalhadores
foi o ponto de apoio da política varguista de aproximação
das massas. Sem isso a pregação trabalhista certamente
cairia no vazio e se revelaria ineficaz, trazendo à luz
apenas o tratamento da “questão social” como
questão de polícia (algo que, de uma forma ou
de outra, perdurou, para dizer o mínimo, no decorrer
dos primeiros 15 anos em que Vargas governou o país).
LP – O tema de sua exposição
no simpósio sobre Getúlio Vargas é “Os
desafinados do samba na cadência do ‘Estado Novo’”.
Do que se trata, mais especificamente?
AP – Falando em termos gerais, eu diria
que o cerco do silêncio que a ditadura do “Estado
Novo” montou em torno das práticas e discursos
que pudessem destoar das normas então instituídas
levou muita gente, por muito tempo, a acreditar no triunfo de
um pretenso “coro da unanimidade nacional”. Trafegando
na contramão dessa visão, que estende seu alcance
aos domínios da música popular, eu procuro levantar
uma parte do véu que encobre manifestações
que desafinam o “coro dos contentes” durante o regime
estado-novista. Meu foco são as vozez destoantes do samba
produzido à época, apesar da férrea censura
dos organismos oficiais (particularmente o DIP, Departamento
de Imprensa e Propaganda).
LP – Aliás, durante a ditadura
Vargas parece que se desenvolveu intensa campanha que visava
desestimular as referências à malandragem nas letras
das canções populares. Esse movimento foi bem-sucedido?
AP – A cruzada antimalandragem, desencadeada
pelo DIP de 1940 em diante, objetivou interromper a relação
visceral que uniu, historicamente, o samba à malandragem.
Essa ofensiva se conectava a reações existentes
no próprio front da música popular brasileira
durante os anos 30. Nele se faziam ouvir vários defensores
da “higienização poética do samba”
ou do “saneamento e regeneração temática”
das composições populares. Com a entrada em ação
do DIP, apertaram-se os nós da camisa-de-força
imposta aos compositores. Esses foram, por assim dizer, sitiados
pelas forças conservadoras à frente do governo
Vargas: seja prodigalizando favores, seja por intermédio
da repressão e/ou censura, tentou-se, a qualquer custo,
atraí-los para o terreno do oficialismo.
Aparentemente, o esforço governamental foi bem-sucedido.
Uma das mais destacadas estudiosas do período chega ao
ponto de assegurar que “o DIP tinha um controle absoluto
sobre tudo o que se relacionava à música popular”,
bloqueando todos os espaços por onde pudesse se insinuar
um discurso divergente. As coisas terão se passado assim?
Depois de ouvir centenas e centenas de gravações
originais de discos 78 rpm lançados entre 1940/1945,
concluí que essas afirmações taxativas
sobre o monopólio do poder estatal precisam ser revistas.
Trata-se de dar ouvidos ao “lado B” da história
do “Estado Novo”. Sem pretender negar a adesão
espontânea, forçada ou interessada de muitos compositores
populares à cantilena estado-novista, o que se percebe,
em dezenas de registros fonográficos do período,
é que, apesar dos pesares, o coro dos diferentes jamais
deixou de se manifestar, de modo mais ou menos sutil, conforme
as circunstâncias.
LP – O senhor poderia nos dar um exemplo
disso?
AP – É impressionante o número
de sambas que viraram muros de lamentação de mulheres
insatisfeitas com seus parceiros sanguessugas. Compostas, normalmente,
por homens e cantadas por mulheres, tais canções,
apesar de sua relativa dubiedade, não deixavam de retratar
a sobrevivência de figuras masculinas que voltavam as
costas ao trabalho. Em “Sete e meia da manhã”,
de Pedro Caetano e Claudionor Cruz, Dircinha Batista, cheia
de bossa, narra a via-crúcis de uma operária que
luta pelo pão-nosso-de-cada-dia. Berra o despertador,
seu companheiro acorda, vira para o lado, puxa a coberta e torna
a dormir, e lá vai ela, a contragosto, trabalhar. Diz,
então, a personagem: “Estou tão cansada/
de ouvir todo dia/ a mesma toada/ o apito da fábrica
a me chamar/ levanta da fábrica e vem trabalhar./ Mas
que viver desesperado”. Neste ponto o samba se recolher,
a melodia envereda pelo ritmo dolente da seresta e ela conclui,
em tom de lamento: “Se Deus um dia olhasse a terra/ e
visse o meu estado”. E, de novo, soa o despertador.
Logo se vê que “Sete e meia da manhã”
não exala o espírito oficial da época.
Sem maquiar o dia-a-dia do operário, trabalho aí
rima com martírio, quando não com miserê,
como se constata em outras composições. Isso tudo
atropela os discursos governamentais e determinadas análises
elaboradas por historiadores e cientista sociais que insistem
em se referir quase exclusivamente à assimilação
da mensagem trabalhista pelos compositores populares. Estamos
aqui muito longe do elogio ao trabalhador que se encontrava
na base dos pronunciamentos do ministro do Trabalho Marcondes
Filho no programa radiofônico “Hora do Brasil”.
Em vez de ser encarado como atividade humanizante e regeneradora,
o trabalho é percebido como fonte de sacrifício
que se impõe aos que vivem atracados com a luta pela
subsistência.
LP – Em seu trabalho se privilegia a
análise das letras das composições?
AP – Não é bem assim.
Sou da opinião de que, no trabalho com registros musicais,
é necessário não nos tornarmos reféns
da literalidade da obra musical. O que eu desejo enfatizar é
que, a meu ver, não basta nos atermos às letras
das músicas. Antes, é indispensável nos
darmos conta de que elas não têm existência
autônoma na criação musical. Tanto que é
preciso atentar inclusive para o discurso musical pronunciado
de maneira não-literal, ou seja, como um discurso nu
de palavras que pode até entrar em choque com a expressão
literal imediata de uma composição.
A propósito, convém ficar alerta para o fato de
que uma canção não existe simplesmente
no plano abstrato. Importa é o seu “fazer-se”,
a formatação que recebe ao ser interpretada/reinterpretada.
Nessa perspectiva, penso que interpretar é também
compor, porque quem interpreta decompõe e recompõe
uma composição, podendo investi-la de sentidos
não imaginados ou mesmo deliberadamente não pretendidos
pelo seu autor. Disso decorre que não é suficiente
tomar abstratamente uma composição, resumida à
peça fria da letra ou da partitura. Sua realização
sonora, do arranjo à interpretação vocal,
tudo é portador de sentidos.
LP – O senhor poderia exemplificar como
é que essas preocupações de natureza metodológica
se combinam, concretamente, com a análise da produção
musical do período estado-novista?
AP – Em grande parte dos sambas que examino é
possível atentar para o fato de que mesmo os aspectos
estritamente musicais são relevantes para a análise
dos discursos que destoam da louvação do regime
estado-novista. O acompanhamento, ao contrário dos adornos
orquestrais que vestiam os sambas-exaltação, é,
em geral, confiado a um conjunto regional. Basta ouvir, por
exemplo, “Vida apertada”, de Ciro de Souza. O arranjo
instrumental é todo balançado, entrecortado por
breques, desde o seu início, com um breque ao piano.
O tom mais coloquial do cantor Ciro Monteiro se diferencia,
claramente, do estilo de interpretação mais empostado
de um Francisco Alves no samba-exaltação “Onde
o céu azul é mais azul”, de João
de Barro, Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho.
Vale ainda uma última observação sobre
o assunto. No período que privilegio , ou seja, o da
existência do DIP (1940/1945), o “samba” e
a “batucada”, como “gêneros musicais”
assim rotulados nos selos dos discos, serão trazidos
para o mesmo campo semântico, feitos sinônimos,
eles que se confundirão em inúmeras omposições/gravações.
Batucada, por sinal, ganhará corpo, formalmente, como
um gênero muito expressivo na primeira metade dos anos
40 (jamais se gravaram tantas canções sob essa
rubrica quando naquela época), para total desagrado de
uma parcela de intelectuais estado-novistas que sustentavam
a necessidade de se promover um movimento, sem tréguas,
a favor da “regeneração social do samba”.
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